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Artigo: Festa do livro - Moacyr Scliar PDF Imprimir E-mail
Escrito por Moacyr Scliar   
17-Out-2008

Festa do livro

Moacyr Scliar (*)

“É tempo de celebrar”: o título que Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro, deu ao texto em que, na revista Panorama, anunciou a vigésima edição da Bienal de Livro de São Paulo, revelou-se absolutamente profético. Porque a Bienal, que levou ao amplo espaço do Anhembi uma enorme e alegre multidão de leitores de todas as idades, foi mesmo uma celebração. Uma celebração do livro e da cultura, que se expressou no extenso programa de atividades: palestras, debates, shows.

Celebração evoca festa, evoca júbilo. O que poderia implicar certa contradição: afinal, o texto escrito tem uma aura de seriedade, de respeito. Não por acaso as grandes religiões expressam seus fundamentos históricos e éticos em livros: o Antigo Testamento, os Evangelhos, o Corão. E não por acaso a biblioteca de Alexandria, no Egito, que pretendia concentrar todo o conhecimento do mundo, tornou-se lendária. Isto, somado ao fato de que, durante milênios, o analfabetismo foi a regra entre seres humanos, explica o poder intimidante que o texto exerceu, e ainda exerce, para muitas pessoas.

A invenção do livro ajudou a democratizar o saber, mas ficou claro que para isso o próprio livro também precisaria ser democratizado, colocado ao alcance de todos, crianças e adultos, homens e mulheres, pobres e ricos. E mais, era preciso proporcionar encontros entre leitores e livros de maneira informal, descontraída, festiva. Pois é justamente o que a Bienal faz. Era só olhar as pessoas que percorriam as dezenas de estandes: claramente viviam um momento de felicidade e até de deslumbramento.

Para o Brasil, isto é uma glória. Precisamos desesperadamente de estímulos para a leitura. O estudo realizado pelo Instituto Pró-Livro mostra que cerca de 77 milhões de brasileiros, a maioria adultos, lêem pouco ou nada. Mas isto não é uma fatalidade, não é coisa do destino: entre as pessoas com curso superior, 98% são leitoras. Esta proporção tem de servir como meta para o trabalho de estímulo à leitura. É preciso ir em busca dos leitores, despertando neles o prazer de ler, que é, segundo o mestre Antônio Cândido (que recentemente completou 90 anos), o grande meio de atrair as pessoas para o livro. Criatividade é palavra-chave. A CBL deu um exemplo, com o projeto “Livro de Todos”, uma obra coletiva que mobilizou 175 jovens escritores (estreantes, em sua maioria) via Internet, que tiveram trabalhos selecionados por uma comissão editorial da Imprensa Oficial de SP, coordenada pelo jornalista Almyr Gajardoni. O site foi visitado por nada menos que 15 mil pessoas. A mim coube escrever o primeiro capítulo, que fala do misterioso roubo do computador de um garoto, no qual estava o texto de um livro por ele escrito. Por que seria importante esse texto, foi a pergunta que deixei para ser respondida. E foi muito bem respondida. O livro é ótimo.

O governo tem um papel importante a desempenhar na formação de leitores. Não por acaso o Plano Nacional do Livro e da Literatura, coordenado pelo intrépido José Castilho, organizou, simultaneamente à Bienal, um fórum sobre leitura. A presença do ministro Juca Ferreira, um batalhador do texto, conhecido pela competência e pela dedicação, é uma garantia neste sentido. Recentemente, as entidades do livro apelaram ao Ministério da Cultura para que se recrie a antiga Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. É uma medida que ajudará a instrumentalizar os numerosos e excelentes projetos que constantemente surgem na área.

A presidente Rosely Boschini tem razão. Este é mesmo um tempo de celebração.

(*) Escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.

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Atualizado em ( 17-Out-2008 )
 
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