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Profecia ou maldição da política Roraimense J. R. Rodrigues (*) Semanas antes da convenção que definiria o candidato a vice na chapa com o Brigadeiro Ottomar Pinto, ele já tinha tomado uma decisão. Todos os seus aliados já tinham sido comunicados que o seu companheiro seria o economista Haroldo Amoras. Todos estavam convencidos a aplaudir essa decisão e a resistência no grupo era mínima, mas significativa. A então primeira Dama Marluce Pinto, o hoje conselheiro do Tribunal de Contas, Netão Souto Maior e o então procurador-adjunto do Estado João Félix eram praticamente os únicos a mostrarem, num público extremante reservado, a resistência a chapa Ottomar/Haroldo. O conhecimento de alguns membros desta resistência aliado a experiência política e de vida de Marluce fez crescer essa resistência e foram buscar apoio no meio dos chamados “novos aliados” que desde a posse de Ottomar em função da disputa judicial com Flamarion Portela, vinham dando apoio ao velho brigadeiro e sendo bastante prestigiado. Neste grupo se encontravam, dentre outros, o deputado federal Luciano Castro, razão pela qual Ottomar assumiu o compromisso de “fazê-lo prefeito de Boa Vista” e o deputado estadual Mecias de Jesus, presidente da Assembléia Legislativa. Pressionado por novos e antigos aliados Ottomar resistiu o quanto pode, reclamou, argumentou, mas no final foi convencido de que havia um outro nome, capaz de compor uma chapa forte para as eleições de 2006, com essa decisão nascia ali o hoje governador Anchieta Júnior. Meses antes, Ottomar tinha conversado com praticamente todas as correntes políticas de Roraima, incluindo o senador Romero Jucá, que reivindicava a vaga de vice, mas por sua sabedoria, sabendo da fragilidade de sua saúde, Ottomar procurava um vice que reunisse duas qualidades (naquele momento preenchidas por Anchieta): A confiança da raiz de seu grupo (era indicado de sua fiel companheira Marluce Pinto), o que daria a tranqüilidade de não deixar as pessoas que ele tanto amava fora do governo imediatamente sua morte e ao mesmo tempo estava sendo indicado por boa parte dos novos aliados, o que daria governabilidade, garantindo a sobrevivência do grupo de Ottomar e até a perpetuação de seu legado político. O resultado de tudo isso foi uma das maiores vitórias de um grupo político em Roraima, o chamado “grupão” massacrou os principais adversários. Romero Jucá, candidato a governador, mesmo com sua grande densidade política, teve uma votação medíocre e sua então esposa Teresa Jucá, que em tese tinha garantida uma das duas vagas no senado, foi humilhada pelo grupo de Ottomar/Anchieta que consagrou a antes inacreditável vitória de Mozarildo Cavalcanti. Iniciado o Governo, Ottomar tratou imediatamente de manter o grupo unido, fomentar a candidatura de Luciano Castro para a prefeitura da capital e continuar rejeitando qualquer acordo com Romero Jucá. Nesse aspecto ele tinha o apoio integral de Marluce Pinto, que atribui a Jucá sua principal derrota eleitoral, quando deixou de retornar para o senado, quando os grupos Jucá e Ottomar estavam no mesmo palanque. O traiçoeiro destino ceifou a vida de Ottomar o que levou o jovem, porém experiente engenheiro Anchieta Júnior ao podium da política roraimense. Os primeiros meses do Governo de Anchieta foram de absoluta normalidade, o legado político de Ottomar estava nas mãos de Anchieta e ele nunca escondeu isso, honrou o compromisso de lançar Luciano Castro candidato a prefeito de Boa Vista, etc., mas essa calmaria só reinaria até surgir no caminho de Anchieta um velho conhecido de Ottomar e o jovem governador seria mais um a cumprir a profecia ou maldição de que cada um dos políticos de Roraima ainda serão enganados pelo menos uma vez por Romero Jucá. O charme sedutor de Romero Jucá fez surgir o que o governador Anchieta chamou de “acordo administrativo” e que resultaria numa parceria velada entre Jucá e Anchieta até as eleições de 2010, culminando com o apoio de Anchieta para a reeleição ao senado de Romero Jucá, numa aliança nos moldes daquela quando Jucá levou uma vaga e Marluce foi “enrolada” como dizem até hoje os seus aliados. Novamente estariam disputando duas vagas para o senado Jucá e Marluce, com grandes chances do resultado também se repetir. O acordo administrativo assumido por Anchieta esteve bem próximo de se transformar numa grande aliança política que envolveria as eleições em Boa Vista e nos demais 14 municípios de Roraima e ainda as linhas mestras da sucessão e das demais eleições em 2010, com a formação antecipada de uma chapa Anchieta e um vice indicado por Jucá. Esse acordo teve resistência fulminante de aliados de Anchieta, apesar da torcida dos aliados de Jucá. Não saiu o acordão, Jucá/Anchieta, mas os dois passaram a dividir lugares, atenção e alegria para uns e tristeza e decepção para aqueles que – dadas as circunstâncias – não aceitam até agora a aliança com Jucá. A primeira vitória de Jucá ocorreu, quando o acordo administrativo foi transformado numa aliança informal nas eleições municipais, Jucá e Anchieta não formariam blocos de oposição em nenhum município e a partir de 6 de outubro, eles colheria os louros da vitória seja qual for o resultado. Em tese, Jucá sendo a chave do cofre do Governo Federal e Anchieta o Governador, todos os eleitos terão que bater continência para os dois, assim não haveria alfinetadas mútuas na campanha e os gastos seriam bem menores. O efeito colateral desta estranha e hipotética aliança é que todos os candidatos – aliados de Jucá ou Anchieta – estão se sentindo largados a própria sorte, abandonados, sem condições de tocar suas campanhas. Mesmo assim, quem chegar vivo até o dia 5 de outubro será o prefeito e consequentemente aliado de Jucá/Anchieta. Verdade ou boato isso só se concretizará após as eleições. Mas a aproximação entre Jucá e Anchieta não é tão simples assim, a exemplo do ocorreu com o então governador Flamarion Portela, para alguns Jucá passou a ser espelho e confessionário de Anchieta. Com Flamarion, Jucá passou de autor das ações que resultaram na cassação Flamarion e na ascensão de Ottomar, ao seu principal aliado. A aproximação de Flamarion com Jucá minou a base aliada que tinha feito Flamarion candidato a vice e depois candidato a governador. O histórico grupo de cinco deputados estaduais que comprou uma briga com o governador Neudo Campos, foram sendo descartados um a um, até Flamarion está completamente nos braços de Jucá. Mesmo cassado e sem mandato Flamarion vence uma disputa judicial e chega na ALE-RR com a cassação de Chico das Verduras e hoje é o principal aliado de Jucá na Assembléia Legislativa e duro opositor a Anchieta Junior. Os discursos de Flamarion são meticulosamente acompanhados e difundidos pela ainda incipiente oposição e a expectativa gira em torno de um pedido de CPI para apurar possíveis irregularidades na saúde estadual. Ou seja enquanto Jucá é um aliado de peso de Anchieta, misteriosamente, seus aliados trabalham para criar uma CPI que fragilizaria o governador e lhe colocaria em confrontos com aliados, produzindo num mínimo uma divisão em seu grupo. Melhor traduzindo, o governador Anchieta Junior, não leva ao pé da letra uma frase atribuída ao velho ACM. “No meu palanque sempre caberá meus opositores, mas eles sempre ocuparão o espaço reservado aos ex-adversários”. Novamente, a exemplo do que aconteceu com Flamarion, Jucá é apontado como o principal interessado na fragmentação do grupo de Anchieta e na sua fragilização política, por que mesmo que eles não sejam aliados em 2010, o governador estará desgastado pelo trabalho dos aliados de Jucá na Assembléia (denúncias, etc.) e com uma relação extremamente arranhada com os aliados de 2006, tudo isso para cumprir a profecia ou maldição de que “cada político de Roraima será enganado pelo menos uma vez por Romero Jucá”.
(*) Jornalista
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