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Impostos e leite Edgar Borges (*) Vida de pai não é fácil. Pelo menos a minha. Trabalho como um louco para comprar as coisas necessárias e supérfluas no lar e assim garantir a estabilidade da maloca Borges. É um esquema mais ou menos assim: grana que entra – coisa a comprar/pagar – grana que vai embora. É quase uma teoria funcionalista: eu cobro e você paga, grita o mundo no meu ouvido. Em março, por exemplo, chegaram os carnês do IPTU e corri atrás de pagar o IPVA. Saiu muito dinheiro do cofrinho. Quer dizer, não é que seja muuiiiiiitoooo dinheiro, mas para um índio pobre, sem parentes importantes, latino-americano vindo do interior e tal, é sim. É obvio que quando reclamo dos impostos, meus amigos brancos e negros dizem: deixa a cidade, volta pra aldeia, vende o carro e compra um cavalo ou uma bicicleta. O mundo se resolve assim, facim, facim. Mas, como já foi dito por aqui mesmo, ter sido criado boa parte da vida na cidade deixou este índio velho mal acostumado. Eu, sinceramente, não ia gostar de ficar todo dia na roça ou então no tanque de peixes, lutando pela geração de renda sustentável. Não. Eu sou um índio ocidentalizado. Gosto de ver TV até tarde, curto ficar no condicionador de ar, odeio pegar sol, gosto de pop-rock e me amarro em fazer compras na feira, sentindo o cheiro das verduras, legumes e frutas já colhidas. Quer dizer, o problema não são os impostos. Afinal, sendo funcionário do Estado, sei que é deles que sai o meu mísero salário. A questão é que a gente não vê muito resultado além disso. Acho que vou sugerir um projeto de lei ao deputado/senador que recebeu meu voto: em vez de pagar taxas e mais taxas, o contribuinte poderia trocá-las pela compra de leite para filhos recém-nascidos. Pelo menos veríamos o resultado na hora, bem à nossa frente, sorrindo e pedindo colo.
(*) Edgar Borges é jornalista e sociólogo. Escreve sobre o cotidiano das terras acima da Linha do Equador nos blogs Crônicas da Fronteira (www.edgarb.blogspot.com) e Histórias de um Índio Velho e seu Filho (www .opaidoindiozinho.wordpress.com ). Além disso, colabora com sites colaborativos como o Ciberdissidencia.blogspot.com, Overmundo.com.br e o que mais aparecer. Troque idéias pelo
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