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| Crônica: O crítico e o criativo - Luciano Pires |
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O crítico e o criativo Luciano Pires (*) Em minha palestra “O Meu Everest”, trato dos desconfortos da caminhada que fiz até o Acampamento Base do Monte Everest em 2001, enfrentando caminhadas de mais de oito horas, banheiros deploráveis, frio, tonturas e vômitos. Ainda no Brasil, durante minha preparação psicológica para a aventura, considerei duas opções para encarar a viagem. Eu poderia adotar aquele ponto de vista tão comum a nosso dia-a-dia: o crítico, que nos faz analisar, usar a lógica. O ponto de vista crítico tem como base a negação: observamos as coisas com ceticismo, negamos, criticamos, destruímos e então fazemos nossas escolhas. Mas o olhar crítico seria uma opção perigosa. Imaginei-me usando a lógica nos sanitários do Everest.... A segunda opção era o ponto de vista criativo, quando usamos a percepção, desenhamos e exploramos. O ponto de vista criativo tem como base a inspiração. Nos momentos da viagem em que eu não me agüentava em pé, quando o frio era insuportável, o ar rarefeito, os enjôos permanentes, eu dava uma parada. Olhava para cima e via uma cadeia espetacular de montanhas, algumas com mais de oito mil metros de altura, cobertas de neve. Uma delas era o Everest, com sua crista de gelo soprando ao vento. A maioria das pessoas não entende isso, não consegue assimilar a idéia de passar frio, correr riscos e entregar-se a um sofrimento físico quase insuportável, “para nada”. E ainda achar legal! Esta noite, assista o Jornal Nacional. Veja o Willian Bonner e a Fátima Bernardes apresentando o Brasil dos noticiários e depois responda: que olhar eles usam para descrever o Brasil? O crítico ou o criativo? Existem motivos para um olhar tão crítico? Claro que sim. Mas não podemos nos submeter a um olhar só crítico. Eu, do alto de meus 51 anos tenho condições de assistir a televisão, ler os jornais, ouvir o rádio e filtrar o que é bom, útil, motivador. Sei separar a verdade da mentira. Sei onde estão as tentativas de manipulação. E sei que o retrato real do Brasil não é aquele que está sendo apresentado. Mas e meu filho de 24 anos? Minha filha de 17? O filho de oito anos de meu amigo? A sobrinha de seis anos de minha colega? Por isso a viagem dos brasileiros dói. É dura. Feia. Insuportável. Só quando aprendermos a compensar o olhar crítico com uma boa dose de olhar criativo é que a viagem passará a valer a pena.
Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.
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