Seg, 09 de Agosto de 2010 18:30    | Imprimir |
Crônica: De volta pro futuro - Luciano Pires
Em minha palestra A FÓRMULA DA INOVAÇÃO, falo como somos focados nas experiências passadas enquanto deixamos de lado as expectativas futuras. Parece que só conseguimos gerenciar o passado, enquanto é no futuro que estão as oportunidades. Conhecer as expectativas é, portanto, fundamental. Quer ver?

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. Aprática da vida tem por única direção a conveniência. Não há principio quenão seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguémse respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crêna honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. Aclasse média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. Opovo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotinadormente. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão etratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas asconsciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!”

Eça de Queirós, no primeiro número da publicação “As Farpas”, em 1871.E este aqui?

“O orçamento nacional deve ser equilibrado. As dívidas públicas devem serreduzidas. A arrogância das autoridades deve ser moderada e controlada. Ospagamentos a governos estrangeiros devem ser reduzidos, se a nação nãoquiser ir à falência. As pessoas devem novamente aprender a trabalhar emvez de viver por conta do governo.”

Marcus Tulius Cícero em Roma, 55 anos antes de Cristo...

Quanto mais leio, mais me convenço de que todos os problemas do mundo jáforam apontados, discutidos e tiveram propostas para solução registradashá milênios. O passado ensina. Ensina, por exemplo, que os temas que nosdeixam indignados hoje são tão antigos quanto a humanidade. Que a questãoda ética tem a ver com a natureza humana e não com o Brasil do novomilênio. Que gente mal intencionada, mal preparada, mal educada, sempreexistiu.

A pergunta fundamental, portanto, deveria ser: “Agora que já conhecemos asexperiências passadas, quando é que começaremos a lidar com asexpectativas futuras?”Gerenciar o passado é impossível. Mas gerenciar o futuro, não.Quando é que vamos tratar das questões que estão por vir? Focar naquiloque esperamos que aconteça e evoluir dos instrumentos e processos quefocam o passado para os que determinam o futuro?

Experiências passadas versus expectativas futuras. Como Marcus Tulius,Cícero e Eça de Queirós, muito mais gente deu as pistas. Mas parece quenão ouvimos.Que triste sina.Em vez de aprender com o passado, teimamos em viver nele.Ou dele.

(*) Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br  
 

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