Seg, 28 de Dezembro de 2009 11:48    | Imprimir |
Crônica: Pílulas Natalinas – Luciano Pires

Hoje vou pegar leve, com algumas pílulas natalinas que andei juntando. São retalhos que vou costurando, sabe como é?

Pílula um: O Natal é um período especial do ano. Uma convenção. Quando ele chega o tempo muda, um clima diferente toma conta da casa, da cidade, do país. Conheço muita gente que odeia o período do Natal. Acha triste, provavelmente por trazer lembranças de tempos felizes que não vão mais voltar. Lembranças de entes amados que já se foram. O Natal traz saudades. Ele acorda a criança que dorme dentro de nós, reaviva sentimentos que nos dominavam quando tínhamos seis, sete anos de idade. Um período em que o Natal, seja rico ou pobre, é sempre fascinante. Foi Erma Bomback, humorista estadunidense quem disse uma frase que chega a doer de tanta poesia:

- Nada mais triste que acordar numa manhã de Natal e não ser criança...

Pílula dois: E houve também um anônimo cruel que disse:

- Aprendi que o homem tem quatro idades: quando acredita em Papai Noel, quando não acredita em Papai Noel, quando é o Papai Noel e quando se parece com Papai Noel.

Pílula três: O meu Natal inesquecível aconteceu quando eu tinha uns dez anos, lá por 1966. A família gigantesca reunia-se na casa de meus avós Duarte e Dora. Era uma tremenda festa, todos davam presentes para todos. Naquele ano só ganhei coisas que crianças detestam: meias, lenços, sabonetes... Fui pra casa arrasado. Quando cheguei, meu pai estranhamente mandou que eu entrasse no quarto e acendesse a luz. Ao entrar senti um cheiro de coisa nova. Acendi a luz e no meio do quarto estava uma bicicleta. Uma Monareta branca e vermelha. Linda.

Brilhante. O melhor presente de Natal da minha vida.

E para terminar, a Pílula quatro: Já que é Natal, que tal um presentinho? O Soneto de Natal de Machado de Assis?

Um homem, - era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço no Nazareno, -

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Feliz Natal!

 

(*) Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista. Faça parte do Movimento pela Despocotização do Brasil, acesse www.lucianopires.com.br.
 

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