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Crônica – Neocid – Luciano Pires

Esta semana fiz aniversário e publiquei no Facebook uma foto minha aos seis anos de idade. O ano era 1962, ainda havia no Brasil um problema sério com piolhos e era comum que as mães cortassem o cabelo das crianças num penteado que, lá em Bauru, a gente chamava de “bodinho”. Veja como era na foto que ilustra este post: toda a cabeça raspada, exceto a parte frontal.

Piolho é um inseto parasita, uma praga que ainda existe. Em 1962, para acabar com piolhos era preciso lavar com vinagre, passar pente fino ou raspar a cabeça. Ou usar inseticidas! Quem lembra da latinha de Neocid que fascinava as crianças por causa do barulhinho que fazia quando apertávamos a tampa? Pois é, o Neocid era um inseticida à base de organofosforados, grupo de compostos químicos utilizados em agropecuária como inseticidas, ocasionando intoxicações acidentais em animais e humanos e sendo utilizados até em tentativas de suicídio. Insuficiência cardio-respiratória por comprometimento do sistema nervoso autônomo pela degeneração de células musculares é uma das consequências daquele Neocid, que hoje já usa outra fórmula.

Você consegue imaginar uma mãe passando inseticida na cabeça do filho?

Pois é.

O corte “bodinho” ficou famoso na Copa do Mundo de 2002, quando Ronaldo Fenômeno o usou para desviar a atenção da imprensa dos problemas físicos contra os quais ele lutava. Os piolhos do Ronaldo eram os jornalistas.

Poucos dias atrás, Alberto Cantalice, vice presidente do PT, assim como Ronaldo, também resolveu combater seus piolhos. Mas o fez publicando um artigo no site do partido, listando nomes de nove personalidades do jornalismo ou da mídia: “Profetas do apocalipse político eles são contra as cotas sociais e raciais; as reservas de vagas para negros nos serviços públicos; as demarcações de terras indígenas; o Bolsa Família, o Prouni e tudo o mais. Divulgadores de uma democracia sem povo apontaram suas armas agora contra o decreto da presidência da república que amplia a interlocução e a participação da população nos conselhos para melhor direcionamento das políticas públicas.(…) suas pregações nas páginas dos veículos conservadores estimulam setores reacionários e exclusivistas da sociedade brasileira a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior, nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes. Seus paroxismos odientos revelaram-se com maior clarividência na Copa do Mundo.”

Os nove são Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Augusto Nunes, Demétrio Magnoli, Guilherme Fiúza, Diogo Mainardi, Lobão, Danilo Gentili e Marcelo Madureira, que têm em comum o fato de defender ideias muito diferentes das de Cantalice e do PT.

Acho justo que o partido se utilize de um pente fino para isolar os piolhos que o incomodam, que os combata com contra argumentos, que diga que não gosta deles, que estimule seus militantes a não lê-los. Mas quando o vice presidente do partido publica um artigo no site oficial da entidade acusando-os de “propagadores do ódio, arautos do caos” e, nas entrelinhas, “inimigos dos pobres”, a coisa começa a fugir do controle. Isso é a institucionalização do ódio.

Vinagre, pente fino e cabeça raspada a gente entende.

Mas Neocid é demais.

(*) Luciano Pires é jornalista e editor do Café Brasil. Publica seus artigos às sextas-feiras em seu blog http://www.portalcafebrasil.com.br

 

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