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Artigo: Brincando de gato-mia - Bruno Peron Loureiro

Brincando de gato-mia

Bruno Peron Loureiro (*)

Quem não se lembra daquela brincadeira do gato-mia? Pois é, no Brasil, costuma-se brincar com assunto sério. Exponho, depois de tanto fermentar idéias sobre o assunto, a desarticulação que há nas políticas elaboradas para o pequeno e médio empreendedor brasileiro. As gigantes nacionais e transnacionais recebem todo incentivo possível além de já estarem munidas de uma estrutura econômica e jurídica para enfrentar qualquer entrave que apareça, como o da máfia das leis trabalhistas, enquanto os pequenos e médios empresários nacionais se vêem impedidos de avançar pela burocracia e a falta de estímulo governamental.

Numa das reuniões entre amigos, recordo da frase de um colega universitário que dizia, em tom de brincadeira e sarcasmo, que havia por aí “visionários com olhos no passado”. Não vejo melhor ocasião para associá-la com algum problema do país que a da inércia de alguns (melhor conceder) governantes para promover o desenvolvimento endógeno e sustentável. No afã de gerar empregos e realizações a qualquer custo dentro de um quadriênio de milagres, que é como vejo que se pode fazer em quatro anos de gestão pública, acaba-se infelizmente tomando decisões retrógradas.

Um caso emblemático é o da Caterpillar em Piracicaba, no interior paulista. O crescimento vertiginoso desta empresa na região caracteriza o que chamo de monopólio da ilusão, uma vez que emprega milhares de trabalhadores, movimenta a economia urbana e afeta o setor de serviços de uma manera perigosa. Acaba, diga-se de passagem, de anunciar férias e demissões coletivas aos seus funcionários devido à crise financeira mundial. O que deve ficar claro é que, em caso de um descontentamento ou instabilidade que afete gravemente os seus negócios, a empresa cai fora e a cidade se abala.

Há focos de grandes empresas nacionais e transnacionais em várias outras regiões do país. Poderia também citar o caso do setor automobilístico. Criam-se cursos profissionalizantes (solda, montagem, secretariado, etc) que atendem majoritariamente à demanda das empresas de grande porte. O problema não é que elas sejam de capital transnacional senão a ilusão de desenvolvimento que se promove com a negligência ao pequeno empreendedor local, que se acovarda e com razão, diante dos obstáculos que lhe aparecem. A técnica local e regional restringe-se pela falta de incentivo dos “visionários”, que ainda não despegaram os olhos do passado.

Basicamente este é o processo que critico: o grande conhecedor de soldagem acaba virando um técnico especializado, nem tão reconhecido, e agregado à enorme dimensão das empresas que demandam sua mão-de-obra; o que sabe montar um veículo inteiro, na impossibilidade de abrir ou prosseguir seu empreendimento, é fagocitado por uma empresa que só demanda dele a montagem de tantos pára-choques por dia. Há lógicas distintas gerindo o desenvolvimento das nossas cidades. Uma delas é a que tem sido mais atendida em detrimento das potencialidades da nossa gente.

Não é culpa da Caterpillar nem das demais gigantes nacionais e transnacionais, no entanto. Elas seguem uma estratégia privada eficiente, porém o incentivo a elas é retrógrado ao que precisamos para o desenvolvimento endógeno. Enquanto isso, nossos “visionários” continuam tateando no escuro sem saber bem onde metem a mão. Esta brincadeira de gato-mia já não tem mais cabimento.

(*) Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista).
 

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