|
||
| Artigo: IX Expoagro Indígena da Serra da Moça - Luzia Voltolini |
|
“A meu ver, o grande problema do brasileiro é ter vergonha da sua ancestralidade, porque a nossa ancestralidade evoca os povos indígenas e africanos. Quando o povo se olha no espelho, vê um passado que ele renega, porque foi educado para renegar” (Daniel Munduruku, 2010). Reconhecer que a grande mistura étnica do povo brasileiro pode nos fazer “parentes”, por vezes iguais, pode causar espanto e sentimento de inferioridade. Aprendi na escola do “branco” que os povos indígenas eram selvagens, muitas vezes as ilustrações estavam estampadas nos livros para confirmar a desigualdade. Incultos, a sobrevivência os restringia a viver isolados, retirando do ambiente o mínimo necessário para sua sobrevivência, incapazes de produzir e sem consciência ambiental. A desigualdade, produzida e justificada por posições em que há superiores e subalternos, torna as relações tensas e contraditórias onde o oprimido busca com suas forças se integrar à sociedade. Isto era o que sabia de fato sobre os índios do Brasil. Ledo engano. Em Roraima, mais especificamente na Terra Indígena Serra da Moça, conheci um povo honesto, batalhador e resistente. Homologada através de Decreto Presidencial Nº 258 de 29 de outubro de 1991, publicado no Diário Oficial da União em 30 de outubro de 1991 sob administração da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), a Terra Indígena Serra da Moça tem uma superfície de 11.626,7912ha (onze mil, seiscentos e vinte e seis hectares, setenta e nove ares e doze centiares) e perímetro de 52.568,57m (cinqüenta e dois mil, quinhentos e sessenta e oito metros e cinqüenta e sete centímetros). Além da Serra da Moça, esta Terra Indígena está subdividida em outras três comunidades: Lago da Praia, Morcego e Serra do Truarú. O acesso da capital do Estado à Comunidade Serra da Moça se dá em parte pela BR 174, sentido Boa Vista/Pacaraima, por 20 km, em seguida o acesso é feito pela RR 319 por km 13 e mais 22 km em estrada sem asfalto até o malocão, local das reuniões. A Comunidade tradicionalmente agrícola é constituída pelas etnias Wapixana e Makuxi, fazem suas roças próximas a Serra utilizando procedimentos que perpassam gerações e raramente usam produtos químicos. Produz tomate, banana, macaxeira, abóbora, milho, pimenta, melancia, ata, graviola entre outras culturas que servem para o sustento das famílias. O excedente é comercializado. Estes produtos estarão expostos durante a IX Expoagro Indígena da Serra da Moça (exposição e feira agropecuária), que acontece de 08 a 11 de setembro de 2010. A finalidade do evento é tornar conhecido e valorizado o trabalho deste povo guerreiro, que já não luta com armas rústicas, mas com inteligência, perseverança, bom humor e muita força pessoal e coletiva. A festa acontece mediante o cronograma definido pela comissão organizadora, sob a coordenação do Sr. Aquilino Rodrigues Mesquita. A programação se inicia no dia 08 de setembro, com a chegada dos produtos; no dia 09 as 08h haverá um culto ecumênico, em seguida desfile e apresentações culturais marcando a participação das escolas Estadual e Municipal da Comunidade e escolas das comunidades circunvizinhas. A abertura oficial acontecerá no dia 10, às 10h com a presença das lideranças indígenas da região e autoridades governamentais do estado e do município. Durante os três dias de festa acontecerão rodeios com cavalos, atividades esportivas e culturais, desfile para a escolha da rainha, comercialização de produtos agrícolas, artesanatos e comidas típicas nas barracas montadas e administradas por moradores da Comunidade. Prestigiar um evento como este oportuniza o exercício da cidadania, o enriquecimento dos nossos conhecimentos, boas compras e muita diversão. Talvez sejamos diferentes na língua, no jeito e no costume, mas iguais no corpo, na inteligência e no respeito. Somos parentes, brancos, negros e índios convivendo no mesmo espaço, interagindo diariamente e a interação, veículo fundamental para a transmissão dinâmica do conhecimento social, histórico e culturalmente construído, acontece a partir da socialização dos saberes existentes nos diferentes grupos da sociedade. Está feito o convite. (*) Luzia Voltolini é professora na EE Indígena Índio Ajuricaba na Comunidade Indígena Serra da Moça. E-mail: luvoltolini@ig.com.br
|














