Seg, 30 de Agosto de 2010 12:03    | Imprimir |
Artigo: Mas Não é, Com Certeza, o Meu País - Hiram Reis e Silva
“Um país que engoliu a compostura

Atendendo a políticos sutis

Que dividem o Brasil em mil brasis

Pra melhor assaltar de ponta a ponta

Pode ser o país do faz-de-conta

Mas, não é com certeza o meu país”. (Zé Ramalho)

Zé Ramalho

Zé Ramalho nascido a 3 de outubro de 1949 é filho da professora Estelita Torres Ramalho e do seresteiro Antônio de Pádua Pordeus Ramalho. Órfão de pai aos dois anos de idade foi criado pelo avô, homenageado, mais tarde, na canção “Avôhai”. Depois de passar a maior parte da infância em Campina Grande, PB, mudou-se com a família para João Pessoa, onde iniciou sua vida artística participando de algumas apresentações de “Jovem Guarda”. Desde então foi ocupando, paulatinamente, graças à genialidade de suas composições, um lugar de destaque na música popular brasileira.  Dotado de uma voz possante, tonitruante e um espírito crítico invulgar, Zé Ramalho envolve aqueles que assistem suas apresentações, sob seu mágico manto de imagens e sons insólitos.

O Meu País - Zé Ramalho

Composição: Livardo Alves - Orlando Tejo - Gilvan Chaves (http://www.youtube.com/watch?v=23njG4p7i7E)

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina

Que não ouve o clamor dos esquecidos

Onde nunca os humildes são ouvidos

E uma elite sem deus é quem domina

Que permite um estupro em cada esquina

E a certeza da dúvida infeliz

Onde quem tem razão baixa a cerviz

E massacram - se o negro e a mulher

Pode ser o país de quem quiser

Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis

Por ausência de códigos corretos

Com quarenta milhões de analfabetos

E maior multidão de miseráveis

Um país onde os homens confiáveis

Não têm voz, não têm vez, nem diretriz

Mas corruptos têm voz e vez e bis

E o respaldo de estímulo incomum

Pode ser o país de qualquer um

Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade

Sepultou o idioma português

Aprendeu a falar pornofonês

Aderindo à global vulgaridade

Um país que não tem capacidade

De saber o que pensa e o que diz

Que não pode esconder a cicatriz

De um povo de bem que vive mal

Pode ser o país do carnaval

Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina

E as ciências e as artes não respeita

Um país que ainda morre de maleita

Por atraso geral da medicina

Um país onde escola não ensina

E hospital não dispõe de raio-x

Onde a gente dos morros é feliz

Se tem água de chuva e luz do sol

Pode ser o país do futebol

Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura

Quer ficar sempre no terceiro mundo

Que do poço fatal chegou ao fundo

Sem saber emergir da noite escura

Um país que engoliu a compostura

Atendendo a políticos sutis

Que dividem o Brasil em mil brasis

Pra melhor assaltar de ponta a ponta

Pode ser o país do faz-de-conta

Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

(*) Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia, professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA), presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS), acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB), membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS) e colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional. Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br. E-mail: hiramrs@terra.com.br
 

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