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Coluna C&T : Desenho de sistemas empreendedores em C&T – Daniel Nascimento-e-Silva

cienciaetecnologia1O Empreendedorismo é um fenômeno que pouco a pouco tem invadido os ambientes das organizações de ciência e tecnologia de forma, muitas vezes, irreversível. A razão principal disso parece ser o alto grau de afinidade entre a natureza dessas organizações e os requisitos empreendedores. Organizações de ciência e tecnologia são (ou pelo menos deveriam ser) ambientes em que as novidades são constantes, especialmente aquelas voltadas para aplicação prática na solução de problemas ambientais. Quando essas organizações estão em sintonia com o seu ambiente de atuação e inserção, e se as capacidades inovativas estiverem presentes, é natural que a atitude empreendedora emerja, se consolide e seja ampliada constantemente. Afinal, tanto as organizações de ciência e tecnologia quanto a atitude empreendedora visam ao mesmo foco: o suprimento de necessidades. Este artigo tem como objetivo apontar aspectos essenciais para o desenho de sistemas empreendedores em organizações de ciência e tecnologia.

Empreender é uma capacidade especial que envolve percepção, esquematização, vontade e operacionalização. A percepção empreendedora vê necessidades e soluções onde quase todos veem normalidade ou impossibilidade; a esquematização, que funciona simultaneamente com a percepção, consegue diluir em sequenciamento lógico as etapas de solução de determinado problema; a vontade é a atitude de demonstrar que a percepção é real e que a esquematização é capaz de materializar a solução encontrada; enquanto a operacionalização é a aplicação da vontade demonstrativa da solução esquematizada para o problema percebido. Nunca é demais explicar que um problema é todo desafio que alguém se impõe. Problema, em empreendedorismo e gestão, não é jamais sinônimo de dificuldade, não tem caráter negativo.

Os empreendimentos podem ser de dois tipos: internos e externos. Os internos são chamados endoempreendedorismo e devem estar focados no suprimento das necessidades das atividades-fim (ensino, pesquisa, extensão e inovação) ou nas atividades-meio (as que dão suporte às produções); os externos são denominados exoempreendedorismo e têm como centro de atenção o suprimento de necessidades do ambiente de atuação e/ou de inserção da organização. Em ambos os casos, o desenho do sistema empreendedor começa com a identificação dos problemas-alvo dos empreendimentos e a consequente criação da carteira de clientes (internos e externos).

As etapas seguintes consistem na elaboração do conceito do produto ou serviço (solução a ser entregue ao cliente), mapeamento das características do serviço ou estrutura analítica do produto (EAP), a determinação das fases e correspondentes entregas, quadro de custos e aquisições, quadro de pessoal e responsabilidades, redação dos termos de compromisso (empreendedorismo interno) ou contratos e convênios (empreendedorismo externo) e execução dos projetos. O que deve ser percebido é que o empreendedorismo, não importa se seja interno ou externo, é sempre uma filosofia de vida, em que compromissos são assumidos e precisam ser honrados. Representa, portanto, uma atitude amorosa em que alguém (o empreendedor) se compromete em auxiliar outrem (o cliente) na resolução de determinado problema. Essa resolução é chamada, no jargão empreendedor, de suprimento de necessidades.

Nas organizações de ciência e tecnologia essa filosofia é perfeitamente possível de ser implantada, como mostram dezenas de milhares de exemplos ao redor do mundo. Aliás, toda organização de ciência e tecnologia de alto desempenho só alcançou essa posição justamente devido à sua capacidade empreendedora. E o ponto focal, iniciático, é quase sempre o executivo principal da organização, seja ele um diretor geral de campus ou um Reitor. Pró-reitores ou outros gerentes quase nunca são exemplos de pontos focais. Dito de outra forma, é raríssimo o exemplo de que um gerente de empreendedorismo tenha obtido sucesso na implantação e consolidação de sistemas empreendedores em organizações de ciência e tecnologia. Assim, organização empreendedora é quase sempre consequência da capacidade empreendedora do executivo principal.

Tem sido, infelizmente, uma febre em organizações de ciência e tecnologia criar gerências ou órgãos executivos com a responsabilidade de implantar cultura empreendedora. Nada mais inútil. Se o executivo principal não tomar a frente, as chances se reduzem bastante. Executivos operacionais podem, em parte, suprir esse apoio, mas as realizações ficarão circunscritas às unidades sob seu comando. Por exemplo, há inúmeros exemplos de cursos de graduação cujo quadro docente, administrativo e discente conseguem alto nível de realização empreendedora, enquanto seus pares não o conseguem. Isso demonstra que o empreendedorismo necessita, para se implantar e consolidar, desse apoio contínuo e próximo do executivo principal.

É importante alinhavar que o empreendedorismo não ocupa espaço estrutural. Dito de outra forma, é desnecessário haver gerência de empreendedorismo ou qualquer coisa que o valha na estrutura (organograma e regimentos) organizacional. O empreendedorismo é uma filosofia. É um fenômeno que perpassa todas as unidades ou setor de uma organização; não é percebido estruturalmente, representativamente, diagramaticamente. O empreendedorismo só pode ser percebido pelos seus resultados. Inversamente, assim como o empreendedorismo não pode ser representado, se não houver resultados satisfatórios para o empreendedor e para o cliente, haverá apenas discurso. E discursos, frases vazias, falares vaidosos é o que não falta nessa seara…

danielnascimento1(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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