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Coluna C & T: Paradigmas e gestão de C&T – Daniel Nascimento-e-Silva

O modismo é quase sempre algo perigoso na prática gerencial. Foi assim com o movimento pela qualidade quando muitas organizações, mais preocupadas com a obtenção do certificado do que propriamente com a incorporação da filosofia às suas culturas, e parece que está sendo novamente com o termo paradigma. É bastante comum ouvir-se de gestores de organizações de ciência e tecnologia que querem impressionar seus colegas a pronúncia desta palavra constantemente. Infelizmente, praticamente todos estão equivocados sobre o que seja paradigma. Neste sentido, este artigo tem como objetivo detalhar a concepção de paradigma e mostrar porque é impossível sua quebra no gerenciamento.

O termo paradigma não é fácil de ser compreendido, o que explica os usos inadequados de todos os que o tem pronunciado. Próprio da ciência e da filosofia, apenas indivíduos com robusto estoque de conhecimento da interação da ciência com a filosofia (mais propriamente do campo da epistemologia) parecem ser capazes de fazer uso apropriado do vocábulo. E, por mais incrível que isso possa parecer ao leigo, são justamente os filósofos, os cientistas e os epistemólogos, os que mais conhecem sobre a palavra, os que menos se recusam a pronunciá-la.

Parece que o apedeuta, ao ouvir o som da palavra Paradigma, fica extasiado, abobalhado. E uma rápida consulta (para os mais honestos) aos dicionários populares vai lhe informar que esta palavra grega pode ser empregada como sinônimo de modelo, ideal, padrão etc. Como consequência, surgem pérolas como “meu terno paradigma é azul marinho com listras” e “o paradigma da minha filha é Gisele Bündchen”. Nada contra o uso de palavras desconhecidas por parte de quem quer que seja. No entanto, como as palavras são instrumentos de comunicação e comunicação exige que a mensagem que se quer transmitir seja compreendida, o mais recomendável seria afirmar com singeleza “meu terno padrão é azul marinho com listras” ou “Gisele Bündchen é o modelo de beleza para a minha filha”.

O erro de quase todos os que pronunciam essa palavra é desconhecer o fato de que paradigma não se refere a algo simples, concreto, que se possa substituir por outra palavra. Paradigma diz respeito a um fenômeno extremamente abstrato, algo que é compartilhado pelos membros de uma comunidade científica. Note bem: algo, qualquer coisa. Não dá para dizer é isso ou aquilo, mas um número muito grande de issos e aquilos. Para tentar ser menos obscuro, tudo o que todos os membros de uma comunidade científica acreditam ou não acreditam, concordam ou não concordam, aceitam ou não aceitam e assim por diante são os algos, as coisas, as peças que vão formar o quebra-cabeça chamado paradigma.

É isso mesmo. Um paradigma é um conjunto muito grande de teorias, modelos, pressupostos, metodologia, métodos, crenças, valores e uma enormidade de outras coisas que os cientistas de uma determinada ou de várias áreas compartilham. Perceba que o leigo está fora desses membros. Paradigma é coisa de cientistas (pessoas que lidam com os elementos do conjunto), filósofos (pessoas que procuram encontrar uma explicação universal e atemporal para os elementos do conjunto) e epistemólogos (pessoas que estudam as formas através das quais os elementos do paradigma produzem conhecimento “verdadeiro”).

Notem a complexidade do termo. Não dá para aceitar um bobalhão tentar chamar a atenção de uma plateia ou a admiração de um inculto ao afirmar “vamos quebrar este paradigma” quando na verdade ele quer dizer “vamos quebrar este protocolo”. Ninguém quebra paradigma, não existe quebra de paradigma. Um paradigma, para ser substituído por outro (e não ser quebrado), leva centenas de anos, como foi o caso da substituição da estrutura de pensamento (um sinônimo de paradigma) geocêntrica para a heliocêntrica.

Por quase dois mil anos praticamente todos os membros das comunidades científicas aceitavam a ideia (o paradigma) de que a Terra era o centro do Universo. Como decorrência desse paradigma, milhares e milhares de explicações (teorias), técnicas, metodologias, métodos e toda uma enormidade de práticas e pensamentos foram desenvolvidas. Aliás, pensar de forma diferente poderia, inclusive, ser motivo de condenação de alguém à morte, como a Igreja Católica o fez milhares de vezes, tal é o poder que um paradigma adquire. Perceba que uma pessoa, sozinha, é incapaz de acabar com um paradigma, por mais genial que seja.

Não se pode quebrar um paradigma porque precisamos dele para viver. Não conseguimos viver sem um paradigma. É por isso que os paradigmas são como os mitos: quando um morre (e sua morte é lenta), outro tem que ser colocado em seu lugar (mas colocado, também, de forma muito lenta e, quase sempre, com muitos conflitos e até guerras). Quando alguém afirmar que vai quebrar um paradigma, ou o cara é louco ou é extremamente estulto. Na maioria das vezes é a estultície que prevalece. Assim, a partir de agora, todas as vezes que você ouvir ou ler que alguém vai quebrar um paradigma, saia de perto ou acabe com a leitura. Certamente você vai ser bombardeado com uma quantidade muito grande de asneiras.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, presidente da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa, Extensão e Interiorização do IFAM

 

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