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Coluna C & T: Foco no talento – Daniel Nascimento-e-Silva

Ultimamente, conseguir um emprego no setor público tornou-se a meta e o objetivo de muita gente por aí. Do ponto de vista da economia do trabalho, há muita oferta de mão-de-obra e também uma relativa alta da demanda. O problema é que, grosso modo, as organizações públicas não têm conseguido obter indivíduos com os talentos necessários para que alcancem seus objetivos por uma questão simples: seus gestores de pessoas não sabem sequer o perfil dos profissionais necessários para ser selecionados. Isso explica, por exemplo, por que o processo seletivo atual é o mesmo de décadas e, em alguns casos, séculos atrás. O processo seletivo das organizações públicas (e também de quase todas as organizações privadas de ciência e tecnologia) não foca o talento. Sua concentração está direcionado para o que tem mais conhecimento. Essa miopia (ou cegueira, na maioria dos casos) é decorrente do fato dos gestores sequer saberem o que é talento. Este artigo tem como objetivo explicar por que as organizações de ciência e tecnologia, pública ou particular, precisa focar o talento para que possa alcançar seus objetivos e metas.

Talento aqui é considerado a inclinação natural que o indivíduo tem para fazer alguma coisa. Dessa definição, alguns aspectos precisam ser compreendidos. Primeiro, que todo mundo tem algum talento, uma vez que todo indivíduo tem alguma inclinação natural para alguma coisa. Dito de outra forma, todo e qualquer indivíduo gosta de fazer alguma coisa, ainda que não saiba que coisa é essa. Segundo, essa inclinação é natural, ou seja, é da própria natureza, da pessoa e do universo, gostar. Muito provavelmente não há alguém no mundo que não goste de nada, nem dela mesma. Terceiro, essa inclinação leva as pessoas a preferir fazer o que gostam em detrimento daquilo que não gostam. Em uma linguagem técnica das ciências psíquicas, as pessoas preferem aquilo que lhes dê prazer e procuram fugir do que lhes provoque dor ou desprazer. E finalmente, o que interessa a qualquer gestor, é desafio do gestor de pessoas conhecer com precisão qual é a inclinação natural de seu corpo social.

Façam o teste! Pergunte ao seu gestor: “chefe, qual é o meu talento?” ou “chefia, o que eu gosto de fazer?”. A resposta do seu chefe será, se ele for honesto, “não sei!”. Indo um pouco mais além, pergunte a você mesmo. Qual é o seu talento? Qual é a sua inclinação natural, aquilo que você gosta de fazer e que, ao fazê-lo, você se sente realizado, feliz? Veja sua resposta e compare com o que você faz. Compare com o que você está sendo pago para fazer. Se você está sendo pago para fazer algo que está distante da sua inclinação natural, do seu talento, você provavelmente está sendo infeliz, está tendo desprazer.

Agora compare o processo seletivo de que você participou, não importando se você é servidor público ou privado. Em algum momento sequer tocaram na palavra talento ou inclinação natural? As provas e diversos exames e testes que você fez tiveram como finalidade identificar e tornar preciso o seu talento? Du-vi-do!!! Mais ainda. Você assumiu o cargo e começou a trabalhar. Em algum momento você foi procurado para avaliar o seu talento ou aperfeiçoá-lo ou adquirir mais talento? A resposta é quase sempre a mesma: nunca! É que organizações amadoras e de gestão improvisada não sabe que todo gestor, não importa qual seja a sua posição hierárquica, é gestor de pessoas e que, por isso, precisa saber qual é o seu talento e lhe ajudar a aprimorá-lo. Nenhuma organização se desenvolve com adequação sem talentos.

O processo seletivo das organizações buscam pessoas que tenham informações. Em nenhum momento buscam saber qual é o talento delas. Não percebem que, sem saber qual é o talento das pessoas que estão colocando para dentro das organizações que teriam que gerenciar, ao invés de selecionar pessoas que ajudem a resolver problema, captam pessoas que criam e multiplicam animosidades e conflitos. Por exemplo, conheço pessoas que se sentem deuses reencarnados por seus supostos geniais conhecimentos, mas recebem 40 alunos na sua disciplina e muitas vezes reprovam todos ao final do semestre! Isso não é genialidade! Isso é burrice misturada com estupidez. A responsabilidade é do professor? Não. A responsabilidade é do gestor de pessoas que o selecionou e do seu gestor, que não sabe como agir sobre ele para que ele faça o que deve ser feito: ensinar.

Processo seletivo e a prática da gestão cotidiana de pessoas tem que se concentrar sobre o talento. Talento é o que a pessoa sabe fazer e gosta de fazer. Uma pessoa de talento faz o que tem que ser feito sob quaisquer circunstâncias. E apresenta resultados. Conheço inúmeros pesquisadores que fazem suas pesquisas, mesmo faltando tudo institucionalmente, publicam suas descobertas e revistas científicas internacionais de alto impacto, depositam e registram suas patentes e seguem em frente. Jamais os vi se lamentando ou incendiando com boatos e maledicências quem quer que seja. O indivíduo de talento sabe o que é capaz de fazer e faz. Quem não tem talento, por mais que se lhe ofereçam todos os recursos do planeta, não faz e jamais fará porque não sabe fazer. O indivíduo sem talento vive de sua boca, que muito fala e nada faz.

Gerenciar pessoas não é mandar nelas. Também não é fazer os cálculos corretos das remunerações e despesas para o seu contracheque. Gerenciar pessoas é coadjuvar o seu autodesafio de ser feliz fazendo coisas do interesse da organização e do seu corpo social. Por isso deve procurar saber se o gosto de fazer coisas das pessoas disponíveis do mercado é aquilo que a organização quer que seja feito. Quando as pessoas gostam do que fazem e a fazem bem, dificilmente haverá problemas de gerenciamento do alcance dos objetivos e metas organizacionais. Quem não sabe fazer isso não tem talento para gerenciar nos tempos modernos.

(*) Daniel Nascimento-e-Silva, PhD, professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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