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Artigo: Uma história surpreendente – Tarcísio Vanderlinde

Poucos dias antes de iniciar o último conflito entre o exército de Israel e o grupo Hamas em Gaza, estivemos com amigos em diversos lugares da Terra Santa. Uma das visitas mais aprazíveis foi ao Monte das Beatitudes que fica na margem noroeste do Mar da Galileia. Ali existe uma basílica, circundada por um jardim muito bem cuidado onde se pode perceber grupos de diversas partes do mundo em ofícios religiosos. Em dado momento, um dos integrantes do grupo lembrou de um versículo bíblico que se acredita ter sido proferido por Jesus naquele lugar: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus”. 

Manter a paz entre grupos que pensam religiosa e politicamente diferente é sempre um desafio, principalmente se estes forem muçulmanos e judeus. Contudo, neste particular há uma história que pode surpreender. No passado existiu um lugar chamado Sefarad. O nome Sefarad, seria mais tarde associado ao de Hispânia. Sefaradim, são os judeus originários daquela região cujo estabelecimento remonta segundo as tradições locais, desde o exílio babilônico, ou seja, desde a destruição do Primeiro Templo no século VI A.C. A presença judaica na região de Sefarad datam desde o primeiro século da nossa era. Os judeus de Sefarad estiveram sob o domínio dos visigodos e quando estes se converteram ao catolicismo passaram a sofrer restrições em suas atividades religiosas e sociais sendo obrigados a adotar a fé cristã. Até o final da hegemonia gótica na Península, os judeus viveram como uma minoria discriminada por uma legislação extremamente opressiva (FALBEL, s/d).

Quando os muçulmanos conquistaram a Península Ibérica, em 711, os judeus tiveram a oportunidade de participar ativamente no estabelecimento do novo poder ascendendo a altos postos governamentais e administrativos. A convivência entre culturas muçulmana e hebraica permitiu e levou a uma simbiose cultural que se refletiu na criatividade judaica peninsular. Assim, o período denominado “A Idade de Ouro”, entre os século XI e XIII, se caracterizou por um extraordinário intercâmbio entre as três religiões: o cristianismo, o islã e o judaísmo promovendo um renascimento das artes, da literatura, das ciências e da filosofia jamais visto anteriormente. A atmosfera de tolerância em Sefarad levou a que se tornasse um dos centros importantes da Europa Medieval atraindo sábios de outros reinos a fim de atuarem em suas escolas e universidades.

Contudo, a harmonia existente entre as populações peninsulares sofreu por várias vezes abalos devido a movimentos fundamentalistas como o dos Almorávidas e Almoadas. A partir do século XIV grandes alterações ocorreriam no relacionamento entre judeus e cristãos e que afetariam profundamente a estabilidade das comunidades sefaraditas. O desenlace final desse processo que assinalava claramente a sua decadência dar-se-ia com a instalação da instituição inquisitorial, na segunda metade do século XV, e tornaria a vida judaica quase que impossível em Sefarad. 

A longa trajetória histórica da presença judaica na Espanha se encerraria dramaticamente com o Édito de Expulsão promulgado pelos reis Fernando e Isabel, em 31 de março de 1492. Dispersos, criaram novas comunidades na Europa, África do Norte e Oriente Médio, levando consigo a espiritualidade gerada durante séculos em Sefarad e preservada pelo Ladino (ainda falado em Israel). 

O legado de Sefarad nos indica que a convivência com diferenças é possível e pode inclusive trazer benefícios surpreendentes a todos os envolvidos. Uma nova “Idade de Ouro” seria bem-vinda no ambiente palco de palavras impactantes pronunciadas há cerca de dois milênios.

(*) Tarcísio Vanderlinde é Doutor em História pela UFF. Pós-doutorado em Sociologia pela UFPR.Docente Associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Atua em Programas de Pós-Graduação da Unioeste nos campi de Foz do Iguaçu e Marechal Cândido Rondon. Tem experiência nos seguintes temas: agricultura familiar e camponesa, história, globalização, mediações, geografia e religiosidades, ecoteologia, migrações, identidades e ambiente. Publicou em 2006 pela Edunioeste o livro “Entre dois reinos: a inserção luterana entre os pequenos agricultores no sul do Brasil”. Consultor ad hoc da Capes. Publica regularmente artigos jornalísticos. tarcisiovanderlinde@gmail.com

 

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