Templates by BIGtheme NET
PÁGINA PRINCIPAL | Colunistas | Hiram Reis e Silva | Artigo: Um Projeto Arriscado – Hiram Reis e Silva

Artigo: Um Projeto Arriscado – Hiram Reis e Silva

Da vontade fizeram renúncia como da vida…

Seu nome é sacrifício. POR OFÍCIO DESPREZAM A MORTE E O SOFRIMENTO FÍSICO…

A gente conhece-os por militares… por definição, o homem da guerra é nobre. E quando ele se põe em marcha, à sua esquerda vai CORAGEM, e à sua direita a disciplina.

(Jornalista Guilherme Joaquim de Moniz Barreto – Carta a El-Rei de Portugal, 1893).

Sempre procurei mostrar àqueles com quem convivo que jamais devemos estar satisfeitos com o que somos; que devemos, sempre e sempre, buscar o aperfeiçoamento em todos os níveis, seja espiritual, físico, mental ou intelectual. Com o passar dos anos, uma natural acomodação é capaz de nos conduzir à mesmice, à estagnação. Devemos combater essa tendência, com todas as forças, com autodisciplina, superação, estabelecendo objetivos definidos. Não devemos ter receio de tentar, medo de fracassar. O perdedor é o que não arrisca e não o que falha tentando. No palco da vida, devemos ser os protagonistas não os coadjuvantes.

Projeto-aventura Desafiando o Rio-mar

Há mais pessoas que desistem o que pessoas que fracassam. (Henry Ford)

Foi com esta convicção, minha paixão extrema pela esposa enferma, minha fé inquebrantável no Grande Arquiteto do Universo e na sua capacidade de operar milagres, meu amor pela Amazônia e pelas águas, que nasceu o “Projeto-Aventura Desafiando o Rio-Mar”. O projeto tem como objetivo fundamental despertar a juventude brasileira para que exerça, desde já, uma pressão cidadã, no sentido de reverter as nefastas ações que afligem nossa Hiléia, exigindo das autoridades providências que contemplem o meio ambiente e os povos da floresta sem, contudo, negligenciar a soberania nacional.

Experiência e Respeito à Natureza

A proposta original consistia em descer o Solimões/Amazonas (Tabatinga/AM – Belém/PA) de caiaque durante 4 meses, reconhecer seus principais afluentes, observar a fauna, flora, hidrografia, relevo, entrevistar autoridades locais e representantes dos povos da floresta. A escolha do caiaque se baseou em dois requisitos fundamentais – “experiência” como canoísta profissional e “respeito à natureza”. A “experiência” já havia sido consagrada nas águas do Mato Grosso, São Paulo e Mato Grosso do Sul quando conquistei o campeonato Sul-Mato-Grossense de Canoagem em 1989, singrando águas brancas, quedas d’água e provas de longa distância. Numa época em que tanto se propugna pelo “respeito à natureza”, o caiaque sintetiza o meio de transporte ideal para ser usado na “Terra das Águas”. Seu deslocamento silente não afugenta, não atemoriza a fauna; as remadas firmes e cadenciadas seguem o ritmo da natureza sem agredir a flora e a ausência de motores a combustão não polui, não macula os Rios.

Óbices

Quando surge um problema, você tem duas alternativas – ou fica se lamentando, ou procura uma solução. Nunca devemos esmorecer diante das dificuldades. Os fracos se intimidam. Os fortes abrem as portas e acendem as luzes. (Dalai Lama)

Infelizmente, as organizações a que o CMPA está diretamente subordinado, que são respectivamente a Diretoria de Ensino Preparatório e Assistencial (DEPA) e o Departamento de Ensino e Pesquisa (DEP), entenderam, na época, que o projeto não era de interesse do Sistema Colégio Militar do Brasil e por isso não autorizavam a realização do mesmo. Como militar não me cabe julgar as decisões dos superiores hierárquicos e parti em busca de uma alternativa. A solução, finalmente encontrada, com o apoio irrestrito de nosso Comandante, Coronel Paulo Contieri, foi a de pedir rescisão do contrato com o Colégio nos meses de dezembro e janeiro e tentar a recontratação a partir de fevereiro de 2009. As mudanças no projeto ocorreram tendo em vista que eu não podia passar quatro meses sem os vencimentos de professor sem comprometer as despesas relativas ao tratamento médico de minha esposa. Por estas razões, o Projeto foi, então, limitado a dois meses (dezembro-janeiro), com saída prevista de Tabatinga em 01.12.2008 e chegada a Manaus em 29.01.2009.

Novos Ares, Novas Esperanças

Vento Xucro

(Jayme Caetano Braun)

Vento xucro do meu Pago

Que nos Andes te originas

Quando escuto nas campinas

O teu bárbaro assobio,

E sinto o golpe bravio

Do teu guascaço selvagem

Eu te bendigo a passagem,

Velho tropeiro do frio. (…)

Também sei que tu repontas

Das velhas plagas Andinas

As tradições campesinas

Entreveradas por diante,

E como um centauro errante

Vagueias no continente

REMEXENDO A CINZA QUENTE

DA NOSSA HISTÓRIA DISTANTE.

Em 2012, depois de ter navegado 5.504 km pelos Rios Solimões, Negro, Amazonas (Manaus–Santarém) e Madeira, novos e salutares ventos permearam pelos corredores e gabinetes das Organizações Militares que tratam “efetivamente” dos assuntos afetos ao Ensino e à Cultura de nosso Exército. O “vento xucro do meu Pago” rompeu as fronteiras Rio-grandenses e resolveu arejar as instituições de ensino da Força Terrestre mostrando a todos que apenas “remexendo a cinza quente da nossa História distante” podemos crescer como Nação e para que isso aconteça temos de nos valer de pesquisadores. Na descida inédita dos quase 4.000 km do Juruá (Foz do Breu–Manaus) nosso projeto, foi tratado como uma pesquisa de interesse da Força Terrestre e, por isso mesmo, minha contratação como Prestador de Tarefa (PTTC) passou de “Professor” para “Pesquisador”. Onde contamos, mais uma vez, com o “Braço Forte e a Mão Amiga” de nossas unidades da Força Terrestre sediadas na calha do Juruá e do Solimões. Não foi diferente na nossa jornada, em outubro de 2013, pelo Tapajós onde, mais uma vez, fomos apoiados pelo Grupo Fluvial do 8° Batalhão de Engenharia de construção, sediado em Santarém, PA.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=z0I-4kyaR_o

Profissão de Risco?

Os Lusíadas

(Luís Vaz de Camões)

Canto X – 153

De Formião, filósofo elegante,

vereis como Anibal escarnecia,

quando das artes bélicas, diante

dele, com larga voz tratava e lia.

A DISCIPLINA MILITAR PRESTANTE

NÃO SE APRENDE, SENHOR, NA FANTASIA,

SONHANDO, IMAGINANDO OU ESTUDANDO,

SENÃO VENDO, TRATANDO E PELEJANDO.

Este ano, em agosto, marcamos a última descida, Santarém-Belém, encerrando nossa 7° jornada, depois de termos percorrido, a remo, 10.910 km pelos amazônicos caudais. Infelizmente, fomos informados de que o Exército não poderá mais nos apoiar em virtude de se tratar de uma operação que envolve RISCO. Achei interessante essa colocação, pois na década de setenta o, então, jovem aluno Reis do Colégio Militar de Porto Alegre quando optou pela Carreira das Armas foi justamente porque elas apresentavam desafios e eventualmente RISCOS. Hoje Coronel da Reserva do Exército, do alto de meus 63 anos volvo os olhos para o não tão longínquo pretérito e constato que os tempos estão mudando e infelizmente para pior.

Derradeira Descida (2014)

Continuamos definitivamente determinados e cumpriremos nossa Missão. Vamos realizar a Descida do Amazonas II (Santarém, PA – Belém, PA), em agosto deste ano sozinho sem qualquer tipo de apoio institucional federal. Contaremos, mais uma vez, com a sempre amável receptividade da valorosa Polícia Militar e ribeirinhos paraenses. No final do ano, dando continuidade às nossas pesquisas realizaremos a Circunavegação da Lagoa Mirim, RS.

Um convite do Dr. Marc Meyers nos empolgou e vamos participar, em outubro deste ano, de uma jornada de Assunção, Paraguai até Manaus, AM, por terra e água a remo, de uma justa homenagem ao Centenário da Expedição Roosevelt-Rondon. Esta chamada do Dr. Meyers nos emocionou muito e sua concretização será uma maneira de participarmos pessoalmente de uma homenagem àquele que considero a maior figura humana de todas as Américas – Rondon – o Marechal da Paz.

Livro do autor

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br). Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link: http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false

(*) Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia; Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx); Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito daAssociação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN). E-mail: hiramrsilva@gmail.com; Blog: http://desafiandooriomar.blogspot.com.br

 

Deixe uma resposta