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Artigo: Um depoimento – Amadeu Roberto Garrido de Paula

Viajei, por meio século e mais quinze anos, por este País que aprendi a amar. Incentivado por meus pais modestos. A política sempre esteve cravada em meus nervos mercuriais. No meu coração, cérebro e neurônios. O prefeito de uma cidadezinha do interior, pensava eu, infante, não deveria permitir que ventos cortantes, lá abundantes nas noites estreladas, penetrassem e raspassem minha pele e meus ossos, invadissem meus pulmões, que até hoje exibem cicatriz. Lia os jornais, até mesmo o pesadíssimo Estadão e seus editoriais, para descobrir o destino do País onde nasci. Vibrava com as campanhas políticas e os belos cartazes coloridos pregados nos postes, com as imagens elegantes de homens sorridentes, passavam-me a impressão de que os mais bonitos correspondiam ao melhor candidato. Senti diferença política imediata quando minha avenida cheia de terra, pó e barro quando despencavam as chuvas, começou a mudar. Asfalto, os primeiros carros em algumas casas. Delícia viajar no primeiro banco de uma Kombi, olhando para o chão bem abaixo, que passava correndo. Íamos para o futuro e o chão ficava no passado. Einstein. Claro, mal sabia. Também pouco suspeitava de que tudo era feito com dinheiro estrangeiro, que um dia seria cobrado, o primeiro amontoado dessa dívida impagável. Com não mais de “oito anos de minha idade” (a expressão é de Carlyle), dei as primeiras correrias na Capital. A praça da Sé assistindo em bloco uma valente mulher falando contra o governo, quando, do lado da baixada leste, vieram as viaturas repressivas com sirenes malucas e tropas dispostas a descer o pau. A multidão se dispersou e, num instante, eu estava na tranquilidade da avenida Liberdade. Senti, como muitos, o assassinato de John F. Kennedy, que me impressionava por seu porte, carisma e oratória incomparável. Vi muitos a chorar. Claro que não sabia que, no mesmo dia, Aldous Huxley, no leito de morte, pedia sua última injeção de LSD (não suportava os erros do mundo, queria ser feliz) e também morria C.S. Lewis. A marcha “com Deus pela liberdade” andava devagar, havia muitas senhoras, religiosas, crentes de que tinham razão, porque Fidel Castro punha no “paredón” os católicos. Minha humilde mãe, “católica apostólica romana”, não pensava sequer em ir a passeatas, tinha de lavar roupa de quatro filhos, além de tudo o mais, mas expressava enorme repulsa ao comunismo, por essa única razão. Como punir, inclusive com a morte, alguém, por sua crença religiosa? Esse tal de comunismo era o satanás. Vi o golpe de 64, não imaginava que um golpe de estado ou uma revolução era tão insossa. Os tanques passavam e o povo olhava bestializado. Castelo Branco me pareceu um baixinho indigno de presidir o Brasil. Presenciei alguns estudantes protestando no Largo de São Francisco e achei que eles deveriam ter razão. A decisão foi ir ao Governador pedir resistência, como mais tarde me falou o falecido deputado, então Presidente do XI de Agosto, Hélio Navarro, Ademar respondeu de bate pronto: resistir com o quê, meus filhos? Com a bunda? A ditadura consolidava os interesses dos grandes, o povo sofria, sindicalistas não se viam, a USP enfrentou o Mackenzie, a cidade ficou silenciosa e cheia de medo, com restos de carros quebrados ou incendiados nas ruas. Silêncio amedrontador na terra arrasada. Li o AI n. 5 no interior de um ônibus, quando passava pela Praça da Árvore. Pressenti o golpe no golpe, sem saber defini-lo. Terminaram as passeatas. Fiz vestibular e ingressei na Faculdade cujos alunos admirei. Contestei um a um, por panfletos lançados por trás das Arcadas, os “projetos impactos”, entre eles o PIS, demagogia que serve até hoje. O FGTS, incorporado ao preço dos produtos, de modo que os próprios trabalhadores financiam suas indenizações quando rompido o contrato. Só eles suportam o ônus das engenharias financeiras, por isso o abismo social não sai do lugar. Jamais imaginei que a esquerda brasileira, tão bem representada pelos artigos que lia na Revista Civilização Brasileira, seria desmoralizada por um governo de supostos trabalhadores, corruptos e que danificaram a ideia para sempre. Nem por isso o capitalismo ganhou, como imaginam alguns, porque é de sua natureza a injustiça, a menos que o transformemos em pontos fundamentais. Saiu Dilma, não foi golpe, na minha visão, que respeita as outras. Temer não apresenta uma reforma ampla e compacta, num mesmo projeto cabe a reforma tributária e dentro dela a da Previdência. Só esta conta, como se fora a panaceia. Não se diz que os recolhimentos do PIS e do COFINS, segundo a Constituição, são destinados à Previdência. Se não tivessem sido usados para outros fins, como, por exemplo, estradas que estão cobertas de mato, a previdência hora do dia estaria apresentando superavit e não deficit. Agora é preciso mudá-la, mas devagar, que o santo é de barro. A União tem milhares de imóveis não usados dos quais pode fazer bom dinheiro. Tem crédito de mais de 100 bilhões contra as empresas de telefonia, monopólio controlado do exterior, capaz, também, de solucionar os problemas. Mas é só crédito. Inexequível, salvo pela vontade popular unida em torno de um governo forte e democrático. Quanto dinheiro do Brasil não saiu pelo ladrão! Não poderia dar outra. Mas uma vez fomos saqueados, pelos próprios brasileiros no mando do desmando por meio das bandalheiras. Se formos saqueados, é porque temos potencial. Não sei se temos carne, mas ainda temos gordura. Só que não podemos ser roubados de novo. Já se aproximando dos últimos caminhos de minha trajetória, compromissado com filhos e netos, ainda elucubro política. A questão nacional ficou muito mais grave, mas se as malandragens vêm à tona e os pérfidos espertalhões forem para o buraco dos cárceres, ainda poderemos evoluir com a ação da parcela do povo que restou, honesta e capaz de construir um País feliz, caso reine um mínimo de harmonia. Nada mais.

(*) Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado e sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados, com uma ampla visão sobre política, economia, cenário sindical e assuntos internacionais.

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