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Artigo: Sesquicentenário do Nascimento de Rondon – (V Parte) – Hiram Reis e Silva

Benjamin Constant

Benjamin Constant

Falar de Rondon é abusar dos adjetivos, é falar no superlativo. Encontramos, na obra de Esther de Viveiros, relatos pessoais, ditados na primeira pessoa, que não nos cabe, como pesquisador, nada acrescentar, nada a retocar, pois foi o próprio Rondon que ditou à jornalista e escritora, pouco antes de falecer, sua história que foi consolidada, mais tarde, no livro Rondon conta sua vida. Apresentamos ao leitor brasileiro a vivência contagiante de brasilidade de um ícone tão magnífico que a nação resolveu materializar sua grandeza batizando um estado brasileiro com seu nome ‒ Rondônia.A Abolição e a República II

Tenente Coronel Benjamin Constant

Em começo de 1889 retirava-se ele, com suas forças, para o Rio. Exultou a Escola Militar, projetando, desde logo, estrondosa manifestação ‒ mas o Governo Imperial proibiu que os alunos fossem recebê-lo. Submeteram-se eles, aparentemente, conservando-se na Escola, encerrados pelos seus altos muros e pelos seus portões trancados. Entretanto, na noite que precedia a chegada de Deodoro, saltaram os muros, por meio de grandes escadas, obtidas sob as vistas complacentes dos oficiais de serviço. E, fardados solenemente, foram recebê-lo com todas as honras.

No dia seguinte, o Corpo de Alunos formava e o Comandante da Escola lhes passava revista, ao mesmo tempo em que os interrogava, para abertura de rigoroso inquérito. Ao chegar junto ao Alferes-aluno Euclides da Cunha, exprobrou-o asperamente o Ministro Tomás Coelho, também presente, o não estar ele em forma, ao que respondeu Euclides da Cunha quebrando a espada e declarando que deixava de pertencer à Escola. Preso imediatamente, foi destituído do posto de Alferes-aluno ‒ mas nada foi possível fazer contra a Escola, uma vez que houvera unanimidade na atitude tomada. Viu-se, assim, o Governo Imperial forçado a “não tomar conhecimento do sucedido”. Quanto a Euclides da Cunha, foi reintegrado por Benjamin Constant, ao ser proclamada a República, a pedido de todos os seus colegas.

Feita a abolição, repontou, como transformação iminente, a República. Não ocultava Benjamin Constant suas convicções republicanas, ao contrário, expunha-as. Convencido pelos ensinamentos de Auguste Comte, transmitidos, principalmente, por Miguel Lemos e Teixeira Mendes ‒ de que a sociedade e o homem, tal como o mundo, obedecem a leis naturais, compreendeu que a reforma das instituições deveria ser precedida pela regeneração de opinião e costumes. (VIVEIROS)
Isidore Auguste Marie François Xavier Comte: filósofo francês, fundador da Sociologia e do Positivismo nasceu em Montpellier a 19.01.1798 e morreu em Paris em 05.09.1857. (Hiram Reis)

Decidiu empregar todo o esforço para poupar à Pátria perturbações e desordens, para transformar uma revolução, que vinha de longe e nada poderia conter, em evolução ‒ ensinando. Foi da cátedra que espalhou as sementes de idealismo que frutificariam a 15 de novembro. A Escola Militar da Praia Vermelha e a Escola Superior de Guerra formaram, de modo decisivo, em torno do idolatrado Mestre. Por ocasião do banquete que a Escola Militar da Praia Vermelha ofereceu à oficialidade chilena do navio de guerra “Almirante Cochrane”, foi o discurso de Benjamin Constant, pronunciado na presença do Ministro da Guerra, verdadeira profissão de fé. O Mestre não foi preso e os alunos fizeram-lhe espontânea e entusiástica manifestação, não permitindo que soldados, e sim eles próprios, remassem no escaler que o conduziria para a Praia de Botafogo ‒ faziam os Lentes o trajeto, entre aquela praia e a Escola, naquela época, por Mar.

Firmaram-se pactos de sangue! Compromissos cheios de ardentes protestos de o acompanharem até no terreno da resistência armada:

‒ Mestre, não são arroubos de mocidade, nem tampouco explosões de entusiasmo extemporâneo os motivos que nos guiam no passo que hoje damos, não são flores que vos trazemos, nem o aplauso, embora merecido, pelo ato que ainda ontem praticastes, quando, no meio do júbilo que nos invadia, ao recebermos a visita dos bravos filhos da grandiosa República do Chile, com a vossa palavra clara, que esmaga gigantes, mostráveis a um dos Ministros da Coroa que ainda há muita dignidade no exército. Não viemos também vos trazer alento, porque os titãs não se cansam. Vimos apenas dizer-vos, Mestre e grande Amigo, que, nos dias desgraçados que atravessa nossa Pátria, ai deles, os que já estão procedendo à partilha do Segundo Reinado, se ousarem tocar naquele onde se guardam puras todas as nossas esperanças, urna preciosa que encerra o que pode haver de mais caro e de mais grandioso.

Era grande a apreensão pelo Terceiro Reinado, em mãos de um Príncipe estrangeiro.

‒ Mestre, sede nosso guia em busca da Terra da Promissão ‒ o solo da Liberdade!

No dia 9 de novembro, realizava-se na ilha Fiscal um baile oferecido aos chilenos. Com alguns companheiros, assisti à chegada da Princesa. Dirigimo-nos então para uma sessão no Clube Militar, deliberadamente marcada para esse dia e hora e que só deveria ser iniciada depois de terem todos os convidados seguido para a ilha Fiscal. Foi essa a célebre sessão do Clube Militar que decidiu da sorte da Monarquia, sessão presidida pelo Tenente Coronel Dr. Benjamin Constant Botelho de Magalhães, por se achar enfermo o Presidente, General Deodoro. […] (VIVEIROS)

Adesão de Deodoro

O obstáculo a vencer era a dedicação de Deodoro ao Imperador, a quem muito admirava. Cuidava em derrubar o Ministério Ouro Preto, apenas. Sem aprofundar a situação até o âmago, só via nas dificuldades do momento a Questão Militar que o não levava além de uma mudança de Ministério. Finalmente, assediado pela insistência de Benjamin Constant, acabou por declarar: Pois seja! Já que você assim o quer. (VIVEIROS)

Ouro Preto: Afonso Celso de Assis Figueiredo ‒ Visconde de Ouro Preto, um dos políticos mais importantes do Segundo Império e amigo pessoal de D. Pedro II, nasceu em Ouro Preto, em 21.02.1836 e faleceu no Rio de Janeiro em 21.12.1912. Foi um monarquista ferrenho e Presidente do Conselho de Ministros do Império, cargo que assumiu em 07.06.1889, e que exerceu até 15.11.1889 quando foi preso e deposto, com a Proclamação da República. (Hiram Reis)

Urgia Precipitar a Explosão

Foram procurados todos os republicanos, entre eles Aristides Lobo, Quintino Bocaiúva, Glicério, etc. Tentou-se aproximação com Floriano. Rui Barbosa só entrou em contato com os revolucionários na antevéspera da Proclamação da República. Estava muito adiantada a organização do movimento que deveria rebentar em breve. Mas o Coronel Solon, do 1° Regimento de Cavalaria, verificou que o Governo acabava de ter denúncia do que se passava e que, a qualquer momento, poderiam ser todos presos. Urgia precipitar a explosão. A 14 de novembro, muito cedo, foi ele comunicar a Benjamin Constant o que sabia. Manobrou no sentido de, na noite desse mesmo dia, reunir Benjamin Constant os oficiais do Clube Militar e das Escolas Militares, no Quartel do 2° Regimento de Artilharia a Cavalo ‒ para onde acorreram também os oficiais do 1° e do 9° Regimentos de Cavalaria. […]

Realizava-se nessa mesma noite uma festa em casa da família Vicente Marques Lisboa, um sobrinho do Almirante Tamandaré. Vivia essa família na vizinhança dos Leais, a quem a unia estreita amizade. Fazia anos Estela, a filha mais moça da família Lisboa, e era esse o motivo da alegre reunião. Entre os convidados estava a família Xavier. Sentia-me assim dividido entre o desejo ardente de estar ao lado de Chiquita e a preocupação de estar alerta. Resolvi, afinal, ir à festa, encarregando meus companheiros de república, entre eles Fileto Pires, Ovídio Abrantes, Astínfilo de Moura, de me prevenirem imediatamente do que houvesse. […] Daí a pouco ouviu-se, de fato, o rodar de um carro que se aproximava. Era um tílburi que parou em frente à casa da família Lisboa e de onde saltou Fileto. Não entrou. No patamar da escada confabulou comigo e com os Leais que também se achavam na festa. (VIVEIROS)

Tílburi: carro de duas rodas e dois assentos (tilbureiro e passageiro), sem boléia, com capota, e tracionado por um só animal. Inventado por Gregor Tilbury, na Inglaterra, em 1818, e trazido para o Rio de Janeiro em 1830. (Hiram Reis)

‒ Não passará talvez a noite, disse eu ‒ a pensar na Monarquia ‒ repetindo a versão de Fileto, como se se referisse a Abrantes.

Despedi-me, ficando todos compungidos e edificados com a dedicação daqueles moços que deixavam a festa ‒ e seus interesses a ela ligados ‒ para acompanhar um amigo enfermo. Os Leais partiram imediatamente, depois de prevenir a mãe, D. Rosa, e as irmãs que os acompanharam. […]

Estava cheio o Quartel. Chegamos na ocasião em que era arrombada a Arrecadação. Pedi logo um dos revólveres Nagan que estavam sendo distribuídos ‒ arma que conservo, com a que me ofereceu Roosevelt, verdadeiras peças de museu. Benjamin Constant chegou às duas da madrugada. Conferenciavam os oficiais, entre os quais o Coronel Solon. Ficou resolvido que se indagasse se a Marinha permitiria a saída da “Brigada Estratégica” e foi, nesse sentido, redigido um ofício ao Almirante Wandenkolk. (VIVEIROS)

Os Mensageiros

Escolheu Benjamin Constant, para portadores de tão importante mensagem, os dois discípulos em quem mais confiava ‒ os discípulos amados ‒ Tasso Fragoso e eu. Seríamos a ligação entre a “Brigada Estratégica” rebelada e os oficiais revoltados da Armada. Às quatro horas, partimos em cavalos escolhidos para uma galopada de São Cristóvão ao Clube Naval, no largo do Rossio. O tropel dos cavalos cortava o silêncio da madrugada, mas prosseguíamos sem obstáculos. Cauteloso, propus, ao sairmos da Rua General Pedra, para defrontar o Quartel-General, que nos mantivéssemos cosidos (colados, próximos) com a grade do jardim, para não ser percebidos. Estava o Quartel-General todo iluminado, como que para advertir de que o Governo vigiava. Continuamos a cautelosa marcha, quase que sopitando o pisar dos cavalos, para que não ressoasse na calçada, até desembocar na Câmara Municipal.

Ao fazer a curva, para ganhar a Rua da Constituição, o meu cavalo prancheou ‒ mas o vaqueiro mimoseano galopava firme na rédea e o animal que rodara, conseguiu firmar-se. Seguíamos, insensíveis a tudo o que não fosse o pensamento de chegar, o mais depressa possível, ao Largo do Rossio, ao Clube Naval e, quando apeamos, estavam nossos cavalos brancos de espuma. Levávamos a senha. Batemos a uma portinha que nos fora indicada, três pancadas espaçadas. Depois de alguns minutos, percebemos que alguém descia. Ouvimos, de dentro, as palavras da senha a que respondemos, repetindo por três vezes a contrassenha, segundo as instruções recebidas. Abriu-se, então, uma fenda na portinha, por onde introduzimos o ofício. Daí a pouco voltou quem recebera de nós o documento e, repetidas as mesmas formalidades, foi-nos entregue, pela fenda, o ofício-resposta. (VIVEIROS)

Brigada Estratégica

O tempo de montar de novo e lá partimos para o Convento de Santo Antônio, onde estava aquartelado o 7° Batalhão de Infantaria, a fim de informar da situação ao Capitão Ferraz. Já encontramos todos a postos. Depois de lhe falar e de lhe transmitir a mensagem de que éramos portadores, tocamos para São Cristóvão a galope, sem acidente. O dia despertava. Súbito, tingiu-se o Oriente sob uma chuva de ouro, pálida a princípio e depois cada vez mais rubra… e sobre essa cortina surgiria em breve o Sol, a iluminar um novo dia, a iluminar, pela primeira vez, a República Brasileira. Apesar da notícia de que o Governo estava a postos, vibravam todos de entusiasmo.

Ao ser conhecida a resposta do Almirante Wandenkolk, soaram os clarins e, em meia hora, estava formada a “Brigada Estratégica” que se compunha do 1° Regimento de Cavalaria, do 9° Regimento de Cavalaria, formado como Infantaria, por falta de cavalos, e do 2° Regimento de Artilharia a Cavalo.

Quanto aos dois oficiais de ligação, Tasso Fragoso e eu, formou ele no pelotão de Alferes-alunos, constituído em guarda pessoal de Benjamin Constant que assumiu o comando, e eu fui designado para comandar a 4ª Sessão da 4ª Bateria do 2° Regimento de Artilharia, sob o comando do Capitão Hermes da Fonseca.
Quando os regimentos se puseram em movimento, foram acompanhados pelas mulheres dos soldados, até certa distância, no desejo de participar dos acontecimentos em que se achavam envolvidos os seus, ansiosas pelo que lhes poderia suceder. Um mensageiro fora enviado a Deodoro, informando-o de que as tropas tinham tomado posição. Ignorava-se, entretanto, se sua saúde lhe permitiria assumir o comando, embora tivesse ele tomado o compromisso de, a menos de absoluta impossibilidade, comandar o movimento, mesmo doente. Era indispensável e urgente que o fizesse. (VIVEIROS)

Deodoro

Quando nos aproximávamos do Gasômetro, percebemos um carro que vinha a toda a brida ‒ era Deodoro. Parou a tropa e ele, com esforço, montou o cavalo que lhe ofereceu um oficial, assumindo o comando. Às sete horas formava, em pé de guerra, a “Brigada Estratégica”, estendida em toda a Praça, em frente ao Quartel-General, onde se achava reunido todo o Ministério, com exceção do Ministro da Marinha, o Barão de Ladário. Estava a tropa revolucionária a postos, quando ele chegou. Foi detido pelo Alferes-aluno Adolfo Pena Filho que lhe deu voz de prisão. O Ministro disparou a pistola ‒ que falhou ‒ sobre ele, mas foi ferido no braço pelo oficial que, revidando, o prendeu, impossibilitando-o de se reunir aos seus colegas.

Conservavam-se fechados os portões do Quartel-General, salvo uma portinhola na porta principal, que se abria de vez em quando ‒ e por ela falavam oficiais revolucionários ao ouvido do oficial que se achava dentro. Passava o tempo. As Forças do Quartel-General continuavam inativas e as Forças Revolucionárias, em linha de combate. É que Floriano desempenhava seu grande papel na proclamação da República ‒ evitar derramamento de sangue. Aliás, embora não tivesse nunca Benjamin Constant podido ter com ele entendimento decisivo, confiava inteiramente no seu patriotismo. Finalmente, o Ministro da Guerra, Visconde de Maracaju, dirigiu-se a Floriano a quem, como Ajudante General, competia dar ordens às tropas:

‒ Você não está vendo que os revolucionários estão prontos para atacar? Faça sua tropa sair!

‒ Infelizmente, Senhor Ministro, não posso cumprir essa ordem.

‒ Você, um herói da guerra do Paraguai, teme dar solução a uma questão política?

‒ É que lá se tratava de inimigos e aqui iríamos matar irmãos. (VIVEIROS)

República

Seguiu-se animada discussão, mas Floriano se manteve inabalável. Eram de oito para nove horas. Um oficial comunicou, para fora, o que se passava. Abriram-se então os portões do Quartel-General, deram-se 21 tiros, vivas à República, sobretudo para abafar o inadvertido (impensado) “Viva o Imperador” de Deodoro. Este e Benjamin Constant, junto de quem me achava eu ‒ que deixara o comando da 4ª sessão da 4ª bateria deram voz de prisão aos Ministros, declarando que estavam destituídos e à disposição da Revolução. Não deixava Ouro Preto de olhar fixamente para Benjamin Constant ‒ previra sempre que aquele moço daria com a Monarquia em terra.

Quando saíam, os Ministros foram apupados pelo povo, com exceção do Conselheiro Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, Ministro da Agricultura, que a todos impunha respeito. Houve então um desfile pela Cidade, em meio ao mais vivo entusiasmo. Dr. Xavier, ignorando o que se passava, acompanhava as filhas à Escola Normal. Ao passar em frente ao Quartel-General, fê-lo um oficial conhecido voltar para Cascadura:

‒ Onde vai, Xavier? Não é momento para passear com as filhas.

E os repetidos “Viva a República” completavam a advertência. O herói da memorável jornada, Benjamin Constant, levou a grandeza ao ponto de tudo atribuir a Deodoro, mesmo depois de rotas as relações entre ambos. (VIVEIROS)

Fonte

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Livraria São José, 1958.

(*) Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista; Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS); Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER) Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN). E-mail: hiramrsilva@gmail.com; Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

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