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Artigo: Sal em bunda de passarinho – Bruno Peron Loreiro

Entre tantas pessoas divertidas que passaram pela minha vida, uma delas animava com seus chistes e ditos até defunto. Erguia o moral das pessoas. Decerto ele era bem visto por aqueles que, afinal, levantavam a cabeça e seguiam a luta. Na minha infância, veio todo sério a contar-me que descobriu como eu poderia paralisar passarinhos para vê-los de perto. Bastava depositar um punhado de sal na bunda de um passarinho. E não é que, em minhas tentativas ingênuas de pirralho, tentei várias vezes?! Chegava perto de algum pardal com um punhadinho de sal na mão, mas ele dava uns pulos e voava.

Foi uma fase boa! Crianças têm expectativas mais amplas do mundo, mas as possibilidades que imaginam podem ser desmentidas por fatos e tropeços na vida.

Ouvimos uma história parecida quando houve o anúncio oficial de que o Brasil sediaria a Copa do Mundo. Chutou-se a trave. Diríamos ao mundo aquilo que já se espera do Brasil: um país tomado pela pobreza e fadado ao futebol. Apesar de tantas mazelas sociais, o governo federal investiria em construção de estádios e ampliação de aeroportos para o acolhimento de turistas. É curioso que logo se surpreendem com o aumento da violência e culpam a malandragem de assassinos e salteadores.

Muito distante de quem precisa de uma arquibancada de estádio e de um hotel cinco estrelas é a necessidade dos encarcerados no Brasil. O médico Dráuzio Varella deu relatos sobre o sistema prisional no Brasil em seus dois livros (Estação Carandiru e Carcereiros). Ele trabalhou por muitos anos em presídios em São Paulo e entrevistou pessoas no setor. Li o segundo, mas acho que Varella perdeu a chance de dar propostas para uma mudança no sistema que amontoa delinquentes em jaulas. Ofereço uma: são seres humanos à espera de um remédio que os retorne à vida; assim, o trabalho poderá ser um ingrediente emancipador para quem tirou indevidamente algo da sociedade.

Na contramão das medidas necessárias para sanar problemas sociais, o governo federal aparenta estar mais disposto a aumentar a repressão que a formular remédios. Mas não acho que seja o melhor caminho nem o menos custoso. É apenas o mais conveniente às elites. Desse modo, a Força Nacional de Segurança Pública tem feito um peso adicional às medidas de repressão nos estados brasileiros. Qualquer governador que veja alguma ameaça à ordem pública em seu estado pode solicitar apoio federal a repressões a ocorrências como manifestações nas ruas e rebeliões em presídios.

O Estado brasileiro tem mantido uma “pirâmide” social (no Brasil, fala-se de “classes” sociais, mas prefiro usar um termo egípcio e maia a outro que é demasiadamente europeu) através da repressão à delinquência e da sobrevalorização de seus burocratas. Ainda assim, servidores públicos fazem greves e demandam aumento de seus salários. Seria ideal que a maioria deles retornasse à coletividade a mesma quantidade de recursos (não necessariamente em termos de dinheiro) que tiram do Estado, em ente de tetas múltiplas e bem chupadas por meio-cidadãos.

Em condições semalhantes às que eu ouvi em minha infância que seria possível paralisar um pássaro se eu conseguisse depositar um punhadinho de sal em sua bundinha, o Estado brasileiro virou um ente indecifrável. O Estado está presente para tirar da sociedade (cobrança de impostos, fiscalizações e punições), mas desaparece para repor à sociedade (coesão social, educação cidadã e incentivo ao bem comum).

O Estado, porém, seria um instrumento inerte sem sua animação pelas pessoas que o constituem e o dirigem. Por isso, se nós não estivermos bem, o Estado tampouco estará bem. Somos a engrenagem de uma máquina que regula a nação.
Portanto, leitor, há que pensar no que queremos do Brasil.

Os efeitos de tanta ingenuidade poderão ser bem salgados.

(*) Bruno Peron Loureiro é mestre em Estudos Latino-americanos por FFyL/UNAM. Site: http://www.brunoperon.com.br 


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