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Artigo: Saber pretensioso e arrogante – Tarcísio Vanderlinde

Num texto escrito há 60 anos, o geógrafo e historiador Eric Dardel já questionava a “cientificidade” como único meio de construção do conhecimento. Haveria uma relação concreta que liga o Homem à Terra, uma geograficidade que se apresenta como modo da existência humana que precisaria ser considerada. Seria, portanto necessário resistir ao espírito do pensador que, em nome de uma razão muito rígida e muito imperiosa costuma entorpecer a liberdade espiritual. Para Dardel, as doutrinas contemporâneas do desespero e do absurdo, em contraste com a extraordinária habilidade técnica e científica, geraram um desencantamento do universo. Em decorrência, emerge um saber que nivela os relevos, aniquila as diferenças e apaga as cores. “Um dos dramas do mundo contemporâneo é que a Terra foi ‘desnaturada’, e o homem só pode vê-la através de suas medidas e de seus cálculos, em lugar de deixar-se decifrar sua escrita sóbria e vívida”, afirma Dardel.

O livro de Dardel é intitulado “O homem e a Terra”. Nele é possível perceber a influência de um pensamento crítico à forma de se fazer ciência no período em que o escrito emergiu. Contudo, percebem-se também as consequências resultantes de um conflito global evidenciado pelo poder de destruição do homem e onde se permitiu o aniquilamento “científico” de vidas em campos de concentração. A visão de um mundo movido pelo egoísmo e por uma visão utilitarista da natureza aparece em diálogos de Dardel com o cientista brasileiro Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome”. A conclusão é que a multiplicação de pontos de vista sobre a Terra levou a um saber pretensioso e arrogante: ganhou-se em extensão, perdeu-se em profundidade. Pouco lembrado nas décadas seguintes, “O Homem e a Terra” revela uma atualidade surpreendente ao ser traduzido de forma sensível por Werter Holzer professor da Universidade Federal Fluminense(UFF).

Ao discutir a contribuição francesa no desenvolvimento da abordagem cultural na ciência, o geógrafo Paul Claval considera a obra de Dardel como sendo de grande originalidade. Destaca a influência intelectual de Heidegger e Mircea Eliade nas formulações teóricas do autor e considera o texto “L’Homme et La Terre” ter sido escrito numa linguagem magnífica, clara, musical. Sobre a ideia central enfocada na obra por Dardel, Claval observa: “A geografia tinha de explorar o sentido humano da presença humana na superfície da Terra. Pela primeira vez, o sentimento religioso, os mitos, a dimensão imanente ou transcendente de alhures, de onde a vida é julgada, tornaram-se centrais da análise geográfica”. 

Ao considerar a paisagem e os diversos espaços geográficos, o autor percebe uma cumplicidade entre o Homem e a Terra, sendo que os hindus são mencionados como exemplo dessa relação. Mas Francisco de Assis também é lembrado pela união e por um parentesco espiritual com o vento, com a água, com os pássaros, com as flores, com as abelhas. O espaço geográfico não é percebido apenas na superfície ou por uma interpretação meramente intelectual. Há uma imaginação criativa que poderia se manifestar pela experiência na interpretação do espaço, ao que Dardel indaga: “Quem tem razão aqui, a ciência que tende a reduzir o mundo a um mecanismo ou a experiência vivida que se apropria do mundo exterior ao nível do fenômeno?” Um espaço vivenciado pela experiência nos colocaria em “um espaço que se dá e que responde, espaço generoso, vivo e aberto diante de nós”. 

(*) Tarcísio Vanderlinde é Doutor em História pela UFF. Pós-doutorado em Sociologia pela UFPR.Docente Associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Atua em Programas de Pós-Graduação da Unioeste nos campi de Foz do Iguaçu e Marechal Cândido Rondon. Tem experiência nos seguintes temas: agricultura familiar e camponesa, história, globalização, mediações, geografia e religiosidades, ecoteologia, migrações, identidades e ambiente. Publicou em 2006 pela Edunioeste o livro “Entre dois reinos: a inserção luterana entre os pequenos agricultores no sul do Brasil”. Consultor ad hoc da Capes. Publica regularmente artigos jornalísticos. tarcisiovanderlinde@gmail.com

 

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