Templates by BIGtheme NET
PÁGINA PRINCIPAL | Opinião | Artigo: Refugo humano – Tarcísio Vanderlinde

Artigo: Refugo humano – Tarcísio Vanderlinde

Em junho de 2014, num voo de Tel-Aviv à Roma, sequer lembrei da tragédia que acontecia nas águas do Mar Mediterrâneo. Aproveitando a oportunidade inédita, a boa visibilidade do dia, e a veia geográfica, estava mais interessado em observar os recortes do litoral de Chipre, Grécia e Itália. A tragédia atingiu o clímax no último dia 19 de abril quando naufragou um barco com mais de 800 imigrantes procedentes da África. O acontecimento está sendo considerado o maior desastre naquele mar de que há memória. A imigração de “ilegais”, refugiados de uma economia predadora que se espalha pelo mundo, tem se acentuado nas últimas décadas do século XX e continua com força neste início de século. Embora existam outros motivos para emigrar, o fator econômico continua sendo o que mais estimula. A pressão dos fluxos migratórios naquela região tem sido mais sobre países como Grécia, Itália, Chipre e Malta, economias em situação de dificuldades, porém mais próximas de quem foge em barcos pesqueiros procedentes de vários locais do norte da África.  A Itália tem reclamado por ajuda para a parte mais rica da Europa. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) tem acusado a Comunidade Europeia (CE) de tomar medidas cínicas diante da tragédia.

O depoimento de um pescador líbio concedido ao jornal inglês The Guardian revela como ocorrem as viagem para a terra prometida, e que não raramente terminam em catástrofes. “Quando eles saem para o mar, são avisados de que têm de ficar sentados, de que não se podem levantar. Mas quando logo pela manhãzinha se apercebem de que estão no meio do oceano, então começam a mexer-se e o barco, que só consegue aguentar determinado número de toneladas, perde o equilíbrio. Começa a encher-se de água e começa a afundar.” Mateo Renzi, primeiro-ministro italiano, reconhece que o que o que ocorre no Mediterrâneo é uma forma de escravidão moderna.

De acordo com o serviço português da BBC, embora o alvo das medidas que a CE esteja tomando em caráter emergencial seja contra os traficantes, a questão das migrações consideradas ilegais é bem mais complexa. Só nos primeiros três meses deste ano, o Acnur estima que mais de 30 mil pessoas cruzaram o Mediterrâneo para chegar à Itália ou à Grécia. O “patrulhamento humanitário” das águas foi suspenso pela Itália no sentido de desestimular a imigração. A medida foi inócua. Estima-se que neste ano mais de 500 mil emigrantes tentarão atravessar o Mediterrâneo. Por outro lado ainda existem os fatores naturais, como ventos fortes que podem pegar os barcos clandestinos de surpresa. Os fenômenos são conhecidos na região desde os tempos bíblicos.

Diante da tragédia há que se lembrar das palavras do lúcido sociólogo Zygmunt Bauman para quem, a nova plenitude do planeta significa, essencialmente, uma crise aguda da indústria de remoção do refugo humano. Na argumentação do sociólogo, a globalização se tornou a mais prolífica e menos controlada “linha de produção” do refugo humano ou de pessoas refugadas. O contingente que se apresenta como um estorvo aos que ainda se sentem incluídos, só tem aumentado em todo o mundo. Os que dirigem a economia planetária responsável por esta situação fazem de conta que o assunto não lhes diz respeito. A economia num sentido macro, efetivamente não está a favor da vida. Ela cria pessoas redundantes e depois não sabe o que fazer com elas.

tarcisiovanderlinde1(*) Tarcísio Vanderlinde é Doutor em História pela UFF. Pós-doutorado em Sociologia pela UFPR.Docente Associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Atua em Programas de Pós-Graduação da Unioeste nos campi de Foz do Iguaçu e Marechal Cândido Rondon. Tem experiência nos seguintes temas: agricultura familiar e camponesa, história, globalização, mediações, geografia e religiosidades, ecoteologia, migrações, identidades e ambiente. Publicou em 2006 pela Edunioeste o livro “Entre dois reinos: a inserção luterana entre os pequenos agricultores no sul do Brasil”. Consultor ad hoc da Capes. Publica regularmente artigos jornalísticos. tarcisiovanderlinde@gmail.com

Deixe uma resposta