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Artigo: Quanta saudade – Luiz Carlos Amorim

Quanta saudade cabe em um dia? Ouvi isso, outro dia, em um comercial que mostrava um cachorro numa janela, esperando, e fiquei pensando a respeito. Lembrei da nossa pinscher Xuxu, que quando a gente saía, ficava o dia inteiro no portão, sentada perto da grade da garagem, esperando a gente. Podia estar frio, ela podia estar com fome ou com sede, mas não arredava pé. Minha mãe ficava admirada com isso, quando ficava em nossa casa para cuidar dela. Quando a gente chegava, era uma festa só, com latidos, correrias, lambidas, etc.

Dá pra medir o tamanho da saudade que se sente? Tenho saudades de lugares, de coisas que vivi, mas tenho mais saudades de pessoas. E também pergunto: quanta saudade cabe em um dia, em uma semana, em um mês, em um ano, em uma vida?

Tenho saudades da minha filharada, que cresceu e foi embora e deixou uma casa enorme para trás, que insiste em me lembrar que minhas meninas não são mais crianças, que agora têm as próprias casas, tão longe da nossa.

Tenho saudades da nossa primeira filha, Vanessa, que chegou, há muitas primaveras, e logo se foi, tão rápido. Mas dói como se tivesse sido ontem, embora a saudade se acumule há muitos, muitos anos.

Tenho saudades dos meus irmãos, mais daqueles que já se foram, tenho saudades da minhas avós, dos meus avôs, de amigos queridos que foram conhecer o outro lado da vida ou estão muito longe para que possamos vê-los e abraçá-los.

Tenho saudades de Portugal, tenho saudades de Lisboa, do Alentejo, tenho saudades do Douro, um dos lugares mais lindos do mundo.

Tenho saudades da minha infância, tenho saudades de mim, da criança que fui, em tempos idos. Tenho saudades de meus outros eus. Preferia, às vezes, não ter saudades, mas a saudade é a prova maior de que vivemos bons momentos, de que fomos felizes. De maneira que quanto mais saudades temos, tanto mais felizes temos sido ou estamos sendo.

Então que venha a saudade, que sempre cabe mais uma pequena felicidade nas nossas vidas, até uma bem grande, que vai acabar se transformando em outra imensa saudade.

luizcarlosamorim1(*) Luiz Carlos Amorim é Coordenador do Grupo Literário A ILHA em SC, com 35 anos de atividades e editor das Edições A ILHA, que publicam as revistas Suplemento LIterário A ILHA e Mirandum (Confraria de Quintana), além de mais de 50 livros.

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