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Artigo: Petróglifos do Jau – Hiram Reis e Silva

hiramreisesilvapetroglifos1Pôr do Sol em Cajazeiras
(Constantino Cartaxo)

O anoitecer é bem tranquilo em minha terra.
Como é bonito o Sol cair lá no horizonte,
Descer, qual tocha em fogo aceso atrás do monte,
Dando a impressão de que mergulha em plena serra.

26.03.2015 – Prainha, PA – Santarém, PA

Ao retornar de minha derradeira jornada pela Bacia do Rio Máximo, de Santarém, PA, a Macapá, AP, em março de 2015, um funesto desalento tentava insistentemente cravar suas garras cruéis na minha alma ‒ uma ambígua sensação de dever cumprido amalgamada a um pueril desejo de prosseguir tomava conta de meu ser. O Grande Arquiteto do Universo, verificando o antagonismo que assaltava meu ser, pintou um Pôr do Sol apoteótico. As nuvens apresentavam uma fantástica variedade de cores e formas, que ao se refletirem nas águas do grande Rio formavam um conjunto harmônico singular, capaz de estimular o coral de pássaros a reverenciar com mais primor a expedição que chegava ao seu termo. Nos últimos lampejos solares o GADU mostrou-me, nitidamente, que minha missão na Amazônia não findara e apontou-me, através da sombra de uma pequena nuvem desde o poente, um novo objetivo que se encontrava à Oeste ‒ o Rio Negro. Meus pensamentos voltaram-se imediatamente para a Foz do Rio Jau, afluente do Rio Negro – região de Airão Velho, onde eu encontrara, na minha descida pelo Rio Negro, em janeiro de 2010, os mais belos petróglifos que avistara nos meus 11.339 km de navegação pelos amazônicos caudais.

hiramreisesilvapetroglifos2Petróglifos

Os petróglifos são representações gráficas gravadas em rochas ou pedras entalhadas por nossos antepassados a partir do Neolítico. A palavra provém dos termos gregos petros (pedra) e glyphein (talhar) e foi originalmente escrita em francês como “pétroglyphe”. Não se deve confundir com a pictografia, que são imagens desenhadas ou pintadas na rocha. Os petróglifos mais antigos têm entre 10.000 ou 12.000 anos. Segundo a maioria dos pesquisadores as imagens cinzeladas na rocha tinham um significado cultural e religioso que há muito se perdeu. A maioria dos petróglifos representa uma linguagem ritual e simbólica e apesar de serem encontrados em diferentes continentes apresentam um enorme grau de semelhança.

A explicação para isso apóia-se na “Teoria do Inconsciente Coletivo” de Carl Gustav Jung que preconiza que os arquétipos de diferentes culturas resultam de uma estrutura herdada geneticamente no DNA do ser humano ou que ficariam gravados em um “Registro Akhasico” que poderia ser acessado através de rituais mágicos, emprego de drogas psicoativas e outros estímulos.

Para interpretar el significado de los signos del Petroglifo de Peñíscola, me he basado en las teorías psicoanalíticas que afirman que existen unos símbolos universales llamados arquetipos. Estos signos son de origen ancestral e incluso, según algunos investigadores, parece que los heredamos en una especie de “inconsciente colectivo”. […] Muchos arquetipos tienen su origen en “lenguaje no verbal”, la línea curva con los extremos hacia arriba es el signo de la sonrisa, con los extremos hacia abajo el de la tristeza, la palma abierta refleja la intención de amistad, un ojo es el signo del poder que vigila, el puño cerrado refleja furia… También se convierten en significados universales [mediatizados por el contexto] la forma que damos a las líneas básicas, la ondulada representa al agua, la quebrada a las montañas, el círculo al vientre femenino, una recta un horizonte en calma… Aunque también existen símbolos mucho más complejos, la mayoría de éstos nacidos del fruto de la actividad onírica. (BOMBOÍ)

Jung, na obra “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo” afirmava:

O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta. […]

Até hoje os estudiosos da mitologia contentavam-se em recorrer a idéias solares, lunares, meteorológicas, vegetais, etc. O fato de que os mitos são, antes de tudo, manifestações da essência da alma foi negado de modo absoluto até nossos dias. O homem primitivo não se interessa pelas explicações objetivas do óbvio, mas, por outro lado, tem uma necessidade imperativa, ou melhor, a sua alma inconsciente é impelida irresistivelmente a assimilar toda experiência externa sensorial a acontecimentos anímicos. Para o primitivo não basta ver o Sol nascer e declinar; esta observação exterior deve corresponder – para ele – a um acontecimento anímico, isto é o Sol deve representar em sua trajetória o destino de um deus ou herói que, no fundo, habita unicamente a alma do homem. Todos os acontecimentos mitologizados da natureza, tais como o verão e o inverno, as fases da lua, as estações chuvosas, etc, não são de modo algum alegorias destas, experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através de projeção – isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza. […] O ensinamento tribal é sagrado e perigoso. Todos os ensinamentos secretos procuram captar os acontecimentos invisíveis da alma, e todos se atribuem à autoridade suprema. O que é verdadeiro em relação ao ensinamento primitivo o é, em maior grau, no tocante às religiões dominantes do mundo. Elas contêm uma sabedoria revelada, originalmente oculta, e exprimem os segredos da alma em imagens magníficas. (JUNG)

O fato de encontrarmos os mesmos arquétipos nos quatro cantos do mundo mostra que eles transcendem barreiras culturais, temporais ou espaciais. Ao entrar em contato com este “Inconsciente Coletivo” ou “Registro Akhasico” os Feiticeiros, Pajés, Xamãs, como queiram chamá-los, teriam a capacidade de “consultar” a memória ancestral da humanidade capturando estes arquétipos. A reprodução das formas que visualizavam neste estado de êxtase profundo teriam resultado nas inscrições, muitas vezes bizarras, que encontramos pelo mundo afora e que apresentam tantos traços comuns.

Espirais

hiramreisesilvapetroglifos3El espiral proviene del griego “speira”, spiritus, espiritualidad. Es la representación matemática de todas las energías universales, y esta inscrita en todos los niveles del espacio y el tiempo. La Tierra nació a partir del movimiento en espiral de una nube de gas y polvo cósmico. La evolución es helicoidal y está presente en el hombre, tal como ocurre en la doble hélice del ADN (ácido desoxirribonucleico) que codifica nuestra herencia. (CHÁVEZ)

A título de exemplo, vejamos o caso da espiral um dos símbolos mais comumente encontrados nos sítios arqueológicos. Infelizmente alguns pesquisadores, sem a visão holística necessária, enxergam-nas apenas como a representação de algum utensílio doméstico esquecendo que a forma em espiral é uma chave arquétipica transcendental. A espiral representa o deslocamento do Sol, a mudança das estações, os solstícios, a evolução, o princípio e o fim, a sabedoria, a eternidade, o passado e o futuro, o Poder do Criador, o “Número de Ouro” do Grande Arquiteto do Universo dentre tantas outras representações. A espiral é, sem sombra de dúvida, um dos arquétipos mais extraordinários da psique humana.

25.10.2016 a 31.10.2016 – Manaus, AM

Novamente pude contar com o apoio irrestrito do comando do 2° Grupamento de Engenharia (2° Gpt E – Manaus, AM), desde minha recepção no Aeroporto Internacional de Manaus (Eduardo Gomes), hospedagem e deslocamento para Novo Airão. O General de Brigada Paulo Roberto Viana Rabelo, Cmt do 2° Gpt E, e seu futuro Chefe do Estado Maior, meu afilhado, Coronel Eduardo de Moura Gomes são grandes amigos com os quais tive a honra e o privilégio de ombrear no 9° Batalhão de Engenharia de Combate, Aquidauana, MS. O 2° Gpt E sempre nos apoiou diretamente e através de suas Organizações Militares Diretamente Subordinadas (5° BEC – Porto velho, RO, 7° BEC – Rio Branco, AC e 8° BEC – Santarém, PA).

01.11.2016 – Novo Airão ‒ Acampamento 1

Parti às 02h30 do 2° Grupamento de Engenharia rumo a Novo Airão. Às 05h30, estacionamos junto às instalações da Associação de Transporte Turístico de Novo Airão (Atuna). Parti rumo Sul, às 05h50, com intuito de observar melhor as ilhas e margem direita do Rio Negro tendo em vista que na minha descida, em 18.01.2010, não tinha tido a oportunidade de documentar adequadamente aquela região do Parque Nacional de Anavilhanas. Foram três horas de navegação, pouco menos da metade delas descendo o Rio e o restante retornando ao ponto de partida. Aportei nas proximidades do Flutuante dos Botos onde contatei uma de suas simpáticas guias.

Flutuante dos Botos ‒ Praia da Orla de Novo Airão

O Flutuante dos Botos está localizado na Praia da Orla de Novo Airão – Parque Nacional de Anavilhanas. Antigamente era permitido ao visitante entrar na água dentro de uma plataforma submersa e comportar-se de maneira passiva, sem perturbar os animais. Infelizmente alguns meliantes, travestidos de turistas, agrediram os animais que algumas vezes revidaram, levando os órgãos de proteção a determinar medidas mais severas. As regras tornaram-se mais restritivas tendo em vista que alguns mal-educados turistas forçavam os botos (Inia geoffrensis) a permanecerem submersos impedindo-os de respirar, outros pressionavam seus “melões”, órgãos extremamente sensíveis capazes de orientá-los em águas com reduzida visibilidade. Alguns mentecaptos, por sua vez, tapavam as aberturas nasais (espiráculos) dos cetáceos impedindo-os de respirar. O espiráculo é um orifício localizado no topo da cabeça que permite ao animal respirar e que possui uma espécie de válvula que impede a entrada de água quando o mesmo submerge.

Aguardei o amável e simpático casal Adriana Fernandes de Barros e Cristiano da Silva Lopes que tinham agendado uma tournée, com o piloteiro Antônio, pelo Parque das Anavilhanas, eu precisava pegar uma carona com o intuito de recuperar o tempo perdido. Embarcamos o caiaque na voadeira e partimos, por volta das dez horas, o trajeto pelas ilhas foi fantástico. Os belos troncos tombados, moldados e carcomidos pelas águas ácidas do Negro lembravam refinadas filigranas a adornar as margens insulares. Aportamos nas cercanias da Pedra do Sanduíche, localizada a uns 47 quilômetros de Novo Airão, e, em seguida, percorremos uma trilha de pouco mais de um quilômetro para conhecer a “gruta” do Madadá. A tal “gruta” é, na verdade, um conjunto de grandes blocos de arenito superpostos imersos no contexto de uma exuberante floresta equatorial primária.

Depois da visita despedi-me dos novos amigos e remei por uns sete quilômetros até as cercanias de uma comunidade de pescadores onde acampei depois de solicitar autorização para tal. Depois de lavar minhas roupas de navegação, me hidratar e comer duas barrinhas de proteína fiquei observando as graciosas evoluções de alguns filhotes de lontras que tentavam pescar. Deitei cedo, deixando o facão à mão na entrada da barraca – nunca se sabe. Antes do anoitecer recebi a visita do líder da comunidade que veio fazer as perguntas de praxe, o pequeno homem alardeava ser pai de 18 filhos, 11 homens e 7 mulheres.

02.11.2016 – Acampamento 1 ‒ Cercanias de Airão Velho

hiramreisesilvapetroglifos5Parti às 05h50, e por volta das oito horas peguei uma breve carona com o piloteiro Raimundo Padilha até a Comunidade Bom Jesus, comprei do Padilha quatro litros de garapa e um enorme biju. Sua esposa, D. Marlene, me informou que eu acampara no covil do “Monstro do Jau”. Achei que se tratava de mais uma “lenda amazônica”, mas ela me disse que o líder da comunidade era um tarado e que era impossível saber qual o grau de parentesco de sua prole já que ele não respeitava as mulheres de seu próprio clã.

Por volta das 12h00 passei pelas belas formações de arenito que Alexandre Rodrigues Ferreira, no século XVIII, chamara de “igrejinhas”:

Deixei o Lugar de Airão (Airão Velho) pelas 07h00 de 29 e, tendo costeado a margem Meridional, atravessei pelas 8 para a outra margem oposta. Pelas 11, antes do meio-dia, aportei para jantar na ponta da ilha fronteira à enseada grande que ali faz margem Austral, onde está a ponta de pedras a que, pela figura de algumas das suas escavações, chamam os brancos as igrejinhas. (FERREIRA)

Aportei sete quilômetros à jusante de Airão Velho totalmente extenuado. A canícula e a alimentação inadequada deixaram-me muito debilitado, mal tive forças para montar a barraca. Nunca tinha sentido um grau de fatiga tão intenso, qualquer movimento demandava um esforço absurdo. Tomei banho e coletei água preocupado com a profusão de cauxis (Porifera, Demospongiae) agregados aos arbustos ao meu redor. O cauxi é uma esponja de água doce que se fixa na vegetação até o limite da inundação do Rio e ao morrer libera uma grande quantidade de espículas (pequenos espinhos) que integram o seu esqueleto. O Dr. Alfredo da Matta faz a seguinte consideração a respeito deste espongiário:

Ora, porque o sagaz e astuto caboclo, ou o nordestino observador já identificado com o meio amazonense, não entra em Rio que tenha cauxi, nele não se banha e não bebe a água daí retirada? Porque o silvícola através de gerações ensinou a cada qual que “i cai tara”, isto é, ele se queima n’água ou a água lhe queima! E com propriedade tão irritante para a epiderme, mais pronunciada ainda ela se torna quando a água ingerida, porque a inflamação da mucosa gastrointestinal poderá por vezes apresentar sintomas alarmantes. Por tal motivo o silvícola dizia: – “cai igaure”, isto é, “queima, bebedor d’água”. (MATTA)

03.11.2016 – Airão Velho ‒ Base Carabinani

Parti logo após ao raiar do Sol e aportei em Airão Velho por volta das 07h30. A Foz do Jau fica a poucos quilômetros de Airão Velho onde ficamos acampados por dois dias (13 e 14.01.2010) conhecendo suas belas ruínas e usufruindo da grata companhia de dois ícones locais – os amigos Ceará e Nakayama. Uma moradora local disse que o Ceará estava residindo definitivamente em novo Airão e que o Nakayma tinha ido até a cidade. Não consegui, portanto, rever meus caros amigos. Consegui uma voadeira para levar a mim e a meu caiaque até a Base Carabinani.

Airão Velho

hiramreisesilvapetroglifos6Pedro da Costa Favela, acompanhado do Frade mercedário Teodósio Viegas, guiado por índios Aruaques, subiu o Rio Negro e desembarcou na Aldeia dos Tarumã de onde os transferiu para um novo local na margem esquerda do Rio Negro, próximo ao Rio Aiurim.

Foi esta Povoação fundada pela primeira vez no sítio vulgarmente chamado dos Tarumás, que foram os gentios que então a povoaram com os da nação Aroaqui, estabelecendo-se uns e outros na distância de meio dia de viagem pela enseada Boreal, imediatamente superior a Fortaleza da Barra deste Rio. Contam alguns índios antigos, que era tão grande a perseguição dos morcegos, e tanto o estrago que eles faziam nas crianças, que para evitarem esse e alguns outros inconvenientes se viram obrigados a mudarem-se daquele para este sítio. (FERREIRA)

Algum tempo depois, a pequena Povoação foi transferida para a margem direita do Negro a jusante da Foz do Rio Jaú, dando origem à missão de Santo Elias do Jaú. Em 1759, a Aldeia de Santo Elias do Jaú foi elevada a Lugar, com o nome de Airão. A mudança de categoria, executada por Joaquim de Melo Póvoas, primeiro Governador da Capitania de São José do Rio Negro, atendia às diretrizes da política pombalina. A toponímia lusófila era apenas um dos sinais de mudança na estratégia da diplomacia portuguesa em relação à ocupação da região. Até o final do século XVII, quando Santo Elias do Jaú foi fundada, vigorava o conceito de fronteira humana.

Os índios amigos dos portugueses são as muralhas do Sertão.
(General Gomes Freire de Andrade ‒ 1695)

Segundo essa premissa, eram consideradas possessões portuguesas todas as terras habitadas por tribos aliadas ao governo português. No século XVIII, no entanto, a posse territorial passou a ser considerada desde que houvesse a conquista militar. O reflexo desta nova política se verificou, então, não apenas na mudança do nome das povoações, mas, sobretudo, na construção de Fortes e guerras aos povos indígenas que não se submetiam à vassalagem do Rei de Portugal. Airão, apesar de ter sido fundada em uma região de terras próprias para a agricultura e pródiga em recursos madeireiros e pesqueiros, enfrentou a decadência e a estagnação poucas décadas depois de sua criação.

Repetidas vezes tenho ouvido engrandecer a festividade do Império do Espírito Santo, pela muita pompa e riqueza, com que ali a faziam os referidos missionários. (FERREIRA)

A descrição detalhada de Airão, feita por Alexandre Rodrigues Ferreira, em 28.04.1786, mostra nitidamente a situação de abandono e decadência em que já se encontrava a Povoação. Ferreira afirma, porém, “que em outro tempo foi das mais populosas e nomeadas” e reforçando a tese de que Airão já havia sido uma próspera localidade ele faz menção às residências dos religiosos:

Ainda não há muitos anos que se demoliram de todo umas casas de sobrado, em que residiam os missionários. (FERREIRA)

Victor Leonardi corrobora a opinião de Jacques Le Goff (Histórias e Memórias ‒ Brasil, São Paulo ‒ Editora Unicamp, 1990):

que a realidade histórica do Velho Airão pós-1750, entretanto, não seja disfarçada: o comércio estava estagnado, o extrativismo era mínimo, os transportes eram precaríssimos, a vida cultural e religiosa já não tinha nada a ver com os tempos anteriores, quando na antiga Santo Elias do Jaú, comemorava-se a festa do Divino Espírito Santo “com riqueza e pompa”. Ou, pelo menos, com uma certa generosidade e abastança. O Airão estava em crise, evidentemente, quando a Expedição científica de Alexandre Rodrigues Ferreira passou por lá. É o mínimo que se pode dizer.

As lendas apontam formigas e outros males naturais como possíveis causas do declínio de Airão. Pode-se afirmar, porém, sem dúvida, que foi a falta de mão de obra escrava indígena que precipitou Airão na estagnação e no caos, fruto de uma política indigenista equivocada no Brasil Império.

Relatos Pretéritos ‒ Airão Velho

José Monteiro Noronha (1768)

153. Dez léguas acima da Boca superior do sobredito Canal está a Ponta das Pedras, a que chamam Igrejinhas, inferior quatro léguas ao Lugar de Airão, situado na mesma costa Austral. Este Lugar foi primeiramente estabelecido, com índios das nações Tarumã e Aruak, na enseada grande que fica logo acima da Fortaleza, de onde se mudou para o sítio em que atualmente está, povoado só com o gentio Aruak por se haver extinguido totalmente a nação Tarumã. (NORONHA)

Alexandre Rodrigues Ferreira (1786)

Parece que, no princípio da sua fundação, se alinharam três ruas de fundo, nas quais erigiram os índios as suas casas. No dia de hoje, porém, só uma das ditas ruas merece tal nome, porque na que representa que teria sido a da frente, apenas se conservam 4 casas no princípio da linha, assim contado, por quem navega Rio abaixo, e mais 2 no fim. Na segunda linha, que é a que representa a fachada da Povoação, não há mais do que 9, incluídas as residências do Reverendo Vigário e do Diretor (as quais estão unidas) e a casa do forno. Na que devia ser a terceira, existem 2, porque todas as mais se demoliram. No centro da linha do prospecto está erigida a Matriz. É a mais pequena (menor) e a mais pobre das que tenho visto. Estava mal coberta de palha, com todo o seu emadeiramento podre; os esteios cerceados à flor da terra e as paredes laterais da Capela-Mor, a do arco dela e as da sacristia necessitavam muito de serem reparadas a tempo, para se não demolirem de todo. Os espeques que lhe mandou encostar o Doutor Ouvidor Ribeiro de Sampaio, para não penderem para fora, serviram de as inclinar e fazer penderem para dentro. É Igreja do tempo das missões, e desde então para cá, o que se lhe tem feito de benefício, não tem passado de passageiros reparos. Tem o único altar da Capela-Mor, aonde está colocada a imagem de Santo Elias, que é o Orago. (FERREIRA)

Antônio Ladislau Monteiro Baena (1839)

Lugar dependente da jurisdição da Vila de Moura, na margem direita do Rio Negro sobre terreno assaz sobranceiro, quatro léguas superior à Ponta de Pedras, a que vulgarmente chamam Igrejinhas, e quarenta e quatro acima da Foz do dito Rio. Foi antigamente Aldeia do Jaú, nome do Igarapé, que molha este Lugar: hoje conta somente 35 mamelucos, 26 mamelucas, 84 índios, 96 índias, uma preta escrava e 5 mestiços. No ano de 1788, continha em duas ruas 180 fogos; estes diminuíram de sorte que já no ano de 1826 só haviam onze no meio de uma planície salpicada de ruínas. (BAENA)

Alfred Russel Wallace (1850)

Durante o segundo e o terceiro dia de viagem (setembro), as margens do Rio apresentaram-se frequentemente pedregosas, altas e pitorescas. Pouco depois avistamos uns poucos rochedos isolados. À altura de um vilarejo denominado Airão, que atingimos depois de uma semana, viam-se diversos fragmentos de rochas areníticas de textura algo cristalina. (WALLACE)

José Cândido de Melo Carvalho (1949)

Airão é atualmente um lugarejo com cerca de 16 casas na margem direita do Rio. Disse-me um morador ali residente há 50 anos que o local já foi próspero, com 3 casas de comércio e muitas residências. Após a queda da borracha, só restaram essas 16 casas, das quais apenas meia dúzia poderia ter realmente esse nome. Estão reformando algumas delas, fazendo apenas a frente de tijolos, deixando o fundo de madeira mesmo. (CARVALHO)

Cheguei à Base Carabinani, por volta das 09h00. A correnteza do Rio Negro de 3,5 a 4 km/h e o Sol causticante, nestes três últimos dias, tinham-me obrigado a caronear nas voadeiras dos habitantes locais (hablocs). Era impossível remar mais de 30 km por dia (8,5 horas de remo) nestas condições. Fraco, esgualepado mesmo, mas muito bem recebido e abrigado pelos novos amigos Caleb Marques da Silva e Jackson Magalhães Valente da Base Carabinani na Boca do Jau. Ao entardecer fomos colocar os ovos de tracajás (Podocnemis unifilis) numa ilha frontal à Base. Um “tabuleiro” alto, protegido das águas e predadores ribeirinhos.

04.11.2016 – Base Carabinani

Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.
(Edward Murphy)

Sai de madrugada para procurar ovos de tartarugas com o Caleb. Achamos apenas um ninho de tracajá com 11 ovos. Para não contrariar a Lei de Murphy esta foi a primeira vez que eu não levara comigo as baterias reservas da máquina fotográfica e foi, logicamente, a primeira que fiquei sem carga na bateria da mesma. Não pude, portanto, fotografar meu desempenho desenterrando cuidadosamente os ovos e mantendo-os com a mesma face para cima coloquei-os no balde com a areia retirada do ninho original. À tarde vamos transferir os ovos para o tabuleiro

O Caleb chamou a atenção e expulsou três pescadores que se encontravam na área da reserva. Encontramos um enorme iate, o Filipana I, ancorado dentro da Reserva praticando pesca ilegal. Segundo os pescadores locais, seus passageiros e tripulantes passaram a noite perambulando pelas praias em busca de quelônios e de seus ovos. Fotografei a embarcação contraventora. Como de costume os tripulantes informaram não saber que aquela região era uma área de Reserva, apesar da quantidade enorme de placas existentes e dos recursos náuticos que uma embarcação daquela categoria possui. Quando o Caleb começou a fazer perguntas a tripulação intimidada chamou, imediatamente, um passageiro ilustre um Senador da República e ex-Ministro de Minas e Energia.

Meus amigos vigias informaram que esta não era a primeira vez que uma autoridade política era flagrada cometendo arbitrariedades no Parque e que há alguns anos atrás – pasmem – um Ministro do Meio Ambiente foi pego pescando dentro da Reserva. Certamente se o Caleb tomasse alguma atitude mais radical era capaz de perder o emprego como aconteceu com o zelador José Afonso Pinheiro, do edifício Solaris, no Guarujá, onde Lula é proprietário de um tríplex.

Continuamos, depois, nosso périplo. Em um dos tabuleiros consegui fotografar três ninhos com filhotes de gaivotas que estáticos permitiram que eu os fotografasse enquanto seus pais sobrevoavam emitindo estridentes gritos de alerta. A tarde foi movimentada. O belo barco Premium da Amazon Clipper com 23 turistas alemães aportou na Base Carabinani para regularizar sua entrada na reserva. O piloto Mário Pontes trouxe um motor novo e gêneros para os vigias Caleb e Jackson. Hoje me sinto um pouco melhor, mas ainda sem condições de fazer grandes esforços.

05.11.2016 – Base Carabinani

Acordei um pouco melhor hoje, acho que meu mal-estar foi fruto de insolação, pouca alimentação e a supressão do remédio Omeprazol. Subi o Jau, a partir das 06h00, encontrei na rota os turistas alemães e um único jacaré-açu nas proximidades da embarcação Premium. Nenhum Petróglifo. Ao retornar à Base Carabinani, o Jackson ia fazer um reconhecimento com os guias turísticos e resolvi juntar-me ao grupo. Georeferenciei uma bela samaumeira com curiosas raízes superficiais que, de longe, assemelhavam-se a rochas e voltamos. Almocei caldo de piranha. Passei à tarde bem até ingerir uma banana, a partir daí descambou a sensação de que o esôfago estava inchado.

À tarde permaneci estacionado na Base Carabinani. Por volta das 17h00, aqueci uma xícara de caldo de piranha e acresci dois ovos ‒ uma sopinha amazônica, que engoli sem problemas. O calor causticante intensificado pelo telhado de zinco, os quartos voltados para Oeste e a ausência de uma brisa forçavam-me, volta e meia, a tomar uma chuveirada e deixar a roupa secar em contato com a pele para arrefecer o corpo. O problema da orientação dos quartos, que devem preferencialmente estar voltados para o Leste, poderia ser resolvido sem qualquer ônus rotacionando a balsa 180°. O calor que emana dos telhados de zinco poderia ser equacionado, a baixo custo, com o emprego de placas de isopor suspensas em armações de aço perfiladas. Um merecido conforto para pesquisadores, fiscais e vigias que se utilizam da Base. Por volta das 18h00, o barco de turistas alemães aportou na Base deixando um panelão de feijoada e diversos outros pratos do seu requintado cardápio. Vou tentar comer um pouco de feijão amanhã.

06.11.2016 – Base Carabinani – Rio Carabinani

De manhã, bem cedo, fui de caiaque até o mesmo local onde encontrara os petróglifos em 14.01.2010. Um incêndio na floresta expôs novas rochas que apresentavam belas gravações, documentei-as com a maior calma e retornei à Base passando novamente pelo barco de turistas alemães que somente agora, por volta das 09h00, preparavam-se para o seu tour.

À tarde o arqueólogo Raoni Bernardo Maranhão Valle, da UFOPA, resolveu documentar uns petróglifos do Rio Carabinani, afluente do Jau e eu o acompanhei. Antes das corredeiras paramos na residência do Sr. Jesus de Nazaré que serviu-nos de piloto e guia. Tivemos de arrastar a embarcação pelas corredeiras do Gavião e Paredão e, em seguida, aportamos e seguimos por uma longa trilha até chegar ao local do petróglifo na Cachoeira Guariba. Era um pequeno painel (de uns 30 por 70 cm) semelhante a uma grega e uma pequena espiral. Um trabalho totalmente diferente das gravações que havíamos encontrado na Boca do Jau. Chegamos depois do entardecer, por volta das 19h00, tomei banho, botei a panela no fogo com dois ovos, feijão e alguns pedaços de galinha, consegui engolir com alguma dificuldade.

07.11.2016 – Base Carabinani

Como o retorno estava previsto para depois das dez horas fui fazer um reconhecimento em três sítios próximos também na margem direita do Jau. Todos apresentavam desgastes profundos nas rochas mostrando terem sido usados como oficinas para manufatura de utensílios domésticos, ferramentas e armas. Encontrei apenas no último deles uma imagem antropomorfa com técnica pouco aprimorada e a figura de uma espiral.

Quando o resgate do Raoni chegou, colocamos o caiaque em cima do toldo da lancha e embarcamos depois de nos despedirmos dos caros amigos Caleb e Jackson. Levamos pouco mais de duas horas para chegar a Novo Airão graças motor de 90 HP da lancha. O Sgt Ramón já estava me aguardando e tinha providenciado um almoço na residência de duas guias turísticas locais. Depois do almoço seguimos para Manaus.

Conclusão

Canção da América
(Milton Nascimento)

[…] Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração. […]

Os levantamentos que realizei no Jau mostram que os responsáveis pela elaboração dos petróglifos era um grupo pequeno e que teve uma efêmera passagem pela região. Os indicadores desta afirmativa são os seguintes:

– Grande número dos petróglifos encontrava-se ainda em fase inicial de manufatura;

– O número limitado de petróglifos (apenas ao Sul da Boca do Jau);

– O reduzido número de oficinas (três) para manufatura de utensílios domésticos, ferramentas e armas (margem direita do Jau);

– A ausência de Terra Preta Indígena (TPI) nas cercanias da Boca do Jau. As TPI possuem alto grau de carbono pirogênico. Este carbono tem origem na queima de restos de animais, corpos humanos, lixo e excrementos. Alguns pesquisadores defendem que são necessários dez anos de ocupação permanente e intensa para produzir 1 cm de terra preta.

Só depois de concluída minha missão é que entendi a mensagem do Grande Arquiteto. A meta principal apontada por Ele não era absolutamente o levantamento dos petróglifos e sim a oportunidade de que eu pudesse rever amigas e amigos de longa data e ter a oportunidade de conhecer outros. Obrigado a cada uma e a cada um de vocês que tornam nossa vida mais fácil, agradável e digna de ser vivida.

Vídeo

Fontes:

BOMBOÍ, Vicent Melià i. El Significado del Petroglifo de Peñíscola ‒ Espanha ‒ Comunidad Valenciana, 2013.

CHÁVEZ – Teodosio Chávez C. & Israel Chávez S & Nádia Chávez S. Tradición Andina: Edad de Oro ‒ Peru ‒ Lima ‒ T CH C Editor, 2007.

FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Conselho Federal de Cultura, 1971.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo ‒ Brasil ‒ Petrópolis, RJ ‒ Editora Vozes Ltdª, 2002.

MATTA, Alfredo da. Cai e Cauxi ‒ Brasil ‒ Manaus, AM ‒ Revista do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, 1934.

hiramreisesilva7(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista; Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS) Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS); Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER); Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
E-mail: hiramrsilva@gmail.com;
Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

Um comentário

  1. Luis Cesar Rosa Melo

    Alguns termos que li, me remeteram para a década de 1980 quando estive no Estado vizinho, Amazonas. Dois anos vividos na maior floresta tropical do mundo, uma oportunidade rara e, modesta, se comparada ao tempo em que o ilustre professor e pesquisador, Hiram Reis e Silva, dedicou às pesquisas naquela imensidão verde de território da região Norte.

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