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Artigo: Os Nheengaíba do Amazônico Delta – Hiram Reis e Silva

O Delta que os geógrafos alarmados julgam diluído e flutuante a caminho da Geórgia e das Carolinas, está ali, em bilhões de camadas, plasmando a gleba das futuras várzeas e das futuras campinas equinociais. Só a Ilha de Marajó, quase toda aumentada pela sedimentação nas fímbrias de sotavento, onde a tranquilidade potâmica e a suavidade das brisas permitem o depósito aluvial das toalhas barrentas, vale por um país. Portugal, por exemplo, equipara-se-lhe mais ou menos em superfície. Outras Ilhas, do porte da Grande de Gurupá, ainda representam espaços enormes, sem meter os numerosos arquipélagos, levantados aqui, acolá, e, o que é tudo, o fundo do Golfo que se alteia e seca. Labor estupendo, despercebido em conjunto, mas apreendido em minúcias, provoca esta interrogação: donde vem tanta terra? Quem o autor desse trabalho ingente? A terra vem dos Andes, das pálias estrangeiras, dos parapeitos da portentosa Cordilheira que se arqueia em muralha no Ocidente do vale. A tarefa ciclópica é do Amazonas, seus afluentes, confluentes e defluentes. Bancos, baixios, praias, restingas, além do que já foi balanceado, são as resultantes da faina perene daquele fabuloso dragão, que vomita dia e noite, anos e anos, a matéria sorvida nos cimos. (DE MORAES)

Marajó

O Escritor paraense Leandro Tocantins, no seu livro “O Rio Comanda a Vida: uma Interpretação da Amazônia”, editado em 1952, assim define Marajó:

A Ilha da Foz possui tamanho superior a países europeus, tais como a Bélgica, a Dinamarca, a Suíça. É a maior Ilha da costa brasileira e, também, de toda a América Meridional, com seus 47.964km2 de superfície. Quase um pequeno continente. Infringe as teorias geológicas de formação de deltas, porque é resto de terra continental desagregada pela água. Eis alguns traços singulares da Ilha de Marajó. Seu nome, provindo da língua tupi, “Mbarayó”, que significa anteparo do mar, dá mesmo a idéia de uma atalaia colossal postada na porta do anfiteatro amazônico. Assim chamavam-na os indígenas que transmitiram aos portugueses a denominação. (TOCANTINS)

O Escritor Aurélio M. G. de Abreu, no seu livro “Civilizações que o Mundo Esqueceu”, publicado em 1992, por sua vez:

Conhecida desde o século XVI, época em que foi batizada como “Ilha Grande de Johannes”, Marajó só foi explorada parcialmente em 1616, ano em que a frota portuguesa de Caldeira Castello (Francisco Caldeira de Castello Branco) a utilizou como base provisória durante sua ação de levantamento topográfico da região, atividade desenvolvida em paralelo com a caça aos corsários franceses e ingleses. Inicialmente ocupada por missões católicas de padres Franciscanos e Carmelitas, que deram lugar à Missão de Jesuítas, a Ilha não parecia diferir das demais regiões da Amazônia. Os Índios, pertencentes à nação Aruaque, mostraram-se arredios a todas as tentativas de catequese, e conseguiram manter uma relativa independência até 1816, ano em que as derradeiras tribos abandonaram a Ilha para se refugiar nas florestas de terra firme. Com a fuga dos Índios, a Ilha, com suas pastagens e campos férteis, não tardou a ser ocupada por fazendeiros e colonos, totalmente desinteressados por objetos indígenas, os quais, quando encontrados, eram rapidamente destruídos, dificultando assim as pesquisas que ocorreriam décadas depois. (DE ABREU)

Expedição Morgan

O geólogo canadense Charles Frederick Hartt havia realizado duas viagens ao Brasil dedicadas exclusivamente ao estudo da geologia e geografia e, somente, a partir da Expedição Morgan, é que suas pesquisas se estenderam ao estudo da antropologia. Como Mestre de Geologia em Cornell, a partir de 1868, iniciou o planejamento de uma nova Expedição ao Brasil. Um de seus maiores incentivadores foi o Coronel Edwin Barber Morgan que doou US$1.000,00 ao projeto e, novamente, em 1871, destinaria idêntico valor para a segunda parte da Expedição – em virtude disso, seu nome passou a designar a empreitada.

Hartt, em 1871, publicou um artigo (The Ancient Indian Pottery of Marajo no The American Naturalist) apresentando, pela primeira vez, a Cerâmica Marajoara à comunidade científica internacional.

Lúcio Menezes Ferreira no seu “Território Primitivo: a Institucionalização da Arqueologia no Brasil (1870-1917)”, comenta:

Ferreira Penna, com efeito, indicou a Hartt ocorrências de sítios arqueológicos e sugeriu, por conseguinte, que ele os escavasse. Tais indicações se deram durante a 1ª Expedição Morgan, realizada a partir de julho de 1870, e resultaram em artigos publicados na “American Naturalist” e nos Arquivos do Museu Nacional. O geólogo canadense, portanto, quando organizou seu projeto para a Comissão Geológica Imperial, cujas Expedições se iniciaram em 1875, já conhecia a localização de alguns sítios arqueológicos. Seu projeto para a Comissão Geológica, assim, não incluiu apenas o estudo das estruturas geológicas e veios fossilíferos amazônicos. Silvia Figueirôa, com base em documentação primária, mostra que Hartt planejara pesquisar o seguinte tópico: “Estudo da Arqueologia do País e da Etnologia das Tribos Existentes”.

As relações entre o cientista brasileiro e o canadense estreitaram-se durante os trabalhos da Comissão Geológica. Ferreira Penna foi contratado pela Comissão para fazer um levantamento cartográfico dos sítios arqueológicos da Ilha de Marajó. Contudo, ele só os escavaria em 1873, depois que William S. Barnard (1849-1887) e Orville A. Derby (1851-1915), alunos de Hartt, o fizessem. Eles foram à Ilha de Marajó em 1870 e novembro de 1871. Contudo, foram precedidos em alguns meses por Joseph Beal Steere (1842-1940), da Universidade de Michigan, que foi o primeiro a escavar um “teso” de Marajó, entre janeiro e maio de 1871. Os resultados das escavações de Derby em sambaquis paraenses e nos aterros da Ilha de Marajó publicaram-se na “American Naturalist” em 1879. Assim, Ferreira Penna não teve precedência científica na Amazônia. Seus trabalhos foram tão importantes para a institucionalização da Arqueologia Amazônica (ou, para situá-los de uma forma mais geral, para a institucionalização da Arqueologia Brasileira) quanto foram os de Barbosa Rodrigues, Ladislau Netto, Gonçalves Tocantins, Couto de Magalhães, Hartt e Derby. Ademais, deve-se convir que Hartt escreveu vários textos arqueológicos e etnológicos, com detalhadas descrições geométricas de artefatos amazônicos, registros de ocorrência de arte rupestre, além de análises sobre cemitérios indígenas em grutas de Minas Gerais. (MENEZES FERREIRA)

Nheengaíbas e Aruãs

Embora se saiba que os Aruás (Aruans) pertenciam ao tronco Aruaque, que costeou o Norte da América do Sul até o Marajó duzentos anos antes da chegada dos europeus com os quais mantiveram boas relações, a origem dos Nheengaíbas continua envolta em mistério.

Nheengaíba, em Tupi, significa “gente de língua incompreensível”. O Padre Vieira afirma, nas suas “Cartas”, que os Nheengaíbas eram formados por 29 nações indígenas diferentes, dentre as quais os Anajás, Mapuás, Paucacas, Guajarás, Pixipixis, Boccas, Pauxis, Mamaianazes, Mocõoes, Jurumas, Muanás e Sacacas.

Vejamos o que nos relata Antônio Manoel Gonçalves Tocantins em “Relíquias de uma Grande Tribo Extinta”, nos idos de 1876:

Os Nheengaíbas (…) representavam papel importante entre os indígenas do Vale do Amazonas. Já dissemos as razões porque nos parece que estas tribos não pertenciam à grande raça Tupi, da qual viviam separadas em sua Ilha imensa. Já vimos que não falavam a língua tupi, e que apresentavam em sua existência uma feição particular. O Padre Antonio Vieira, que, assim como todos os outros Padres da companhia de Jesus destas Missões, era mui versado nesta língua, só por meio de intérpretes pôde entender-se com os Nheengaíbas. Donde vieram, pois, estes indígenas plantar suas tabas no meio das numerosas Aldeias espalhadas pelo Vale do Amazonas, e pertencentes quase todas aos Tupinambás e outros Tupis? Desde que começamos estas pesquisas fomos logo de parecer que os Nheengaíbas ou habitantes de Marajó eram descendentes de alguma tribo peruana descida pelo Amazonas no tempo dos Incas. (…)

Naquela Ilha quer-me parecer que se fixou e floresceu por largos anos a tribo mais industriosa e mais culta de quantas povoaram a princípio o Brasil; e tenho que ali é que por mais tempo se tem conservado os vestígios e as pálidas tradições da civilização andina, transferida para essa porção da América, onde mais tarde duas grandes nações, a Tupi e a Guarani, tanto medraram sem, contudo, alcançarem nunca esse grau de rude cultura de seus maiorais. Veio em tão boa hora isentar-nos de tamanha falta o Sr. Ferreira Penna com o seu belo presente, composto quase todo de fragmentos de vasos (procedentes de Marajó) mui diversos dos que tem sido até hoje desenterrados noutras paragens do Brasil: estes apresentam de ordinário a forma do fruto das sapucaias, e são lisos ou toscamente escamados, como se houvera a intenção de copiar neles a pele de jibóia; os de Marajó são multiformes, e delicadamente esculpidos ou pintados à maneira dos da Bolívia ou do Peru. (GONÇALVES TOCANTINS)

Sapucaia (Lecythis pisonis): o fruto tem a forma de uma cumbuca com tampa (cumbuca de macaco), de 12 a 18cm. No fruto se encontram sementes arredondados ou ovais, semelhantes à castanha da Amazônia. (Hiram Reis)

Quando os espanhóis invadiram o Peru submeteram os Índios que encontraram em sua passagem; no momento, porém, que quiseram entrar em Cuzco, os habitantes, que a principio tentaram defender-se, vendo depois que este partido era impossível, abandonaram sua capital e emigraram. Ora, o movimento geral de emigração nessa época foi para os Andes, onde muitos peruanos ficaram com seu Príncipe Tito, do sangue dos Incas, e outros desceram pela vertente Oriental e seguiram pelo Amazonas no mesmo rumo que depois seguira Orelana. (…) Ora Nheengaíbas em sua significação Tupi quer dizer – povo que fala mal, ou que fala língua, desconhecida ou confusa. É assim que os romanos também chamavam bárbaros a todos os povos que não falavam a sua própria língua. (GONÇALVES TOCANTINS)

Lúcio Menezes Ferreira concorda com Gonçalves Magalhães apresentando a teoria do Médico, Professor e Ornitólogo teuto-brasileiro Hermann von Ihering:

Uma série de vestígios arqueológicos comprovaria, para Ihering, os contatos dos Incas para além de seu território imediato: o cultivo de plantas muito específicas, como a coca, o milho, a mandioca, o feijão e o algodão, encontradas na Venezuela, no Paraguai, na Argentina Setentrional e no Rio Grande do Sul; os machados de cobre e motivos pictográficos da “arte rupestre” da Argentina, sobretudo os de Catamarca, seriam semelhantes aos do Rio Grande do Sul.

Hermann von Ihering, em seguida, define duas regiões arqueológicas, ou, como ele preferiu dizê-lo, uma síntese de duas “regiões transitórias”. Haveria dois territórios arqueológicos de um Brasil andino. De um lado, Catamarca ligar-se-ia à Ilha de Marajó. Pois as refinadas urnas funerárias, lá e acolá, apresentariam figurações simbólicas semelhantes. Assim, uma primeira região arqueológica formou-se numa zona de confluência entre os grupos “incaicos” assentados no Noroeste argentino e os habitantes da Ilha de Marajó. As cerâmicas Incas, e aqui Ihering fala hipoteticamente, teriam descido o Amazonas e aportado na Ilha de Marajó, onde se transfiguraram num novo estilo cultural. (MENEZES FERREIRA)

Emigração da Cultura Chavin

A Arqueóloga, Historiadora e Professora peruana Rebeca Carrion Cachot no seu livro “La Cultura Chavin”, editado em 1948, pelo “Museo Nacional de Antropologia y Arqueologia de Lima”, considerava que a Fase Marajoara teve como origem a “Cultura Chavin” em decorrência de algumas semelhanças nas suas artes cerâmicas. A Cultura Chavin, que se desenvolveu nas montanhas do Peru há aproximadamente 4.000 mil anos, teria emigrado da região andina em decorrência de uma invasão oriunda da região do Pacífico (CACHOT). O Antropólogo venezuelano Mario Sanoja Obediente, como tantos outros, reforça esta teoria da emigração da Cultura Chavin para diversas regiões, dentre as quais a região da Foz do Amazonas afirmando:

Entre 1500 y 1000 años antes de Cristo hay evidencias concretas de la migración de pueblos ligados a las culturas formativas andinas de la vertiente amazónica y el altiplano, particularmente Kotosh y Chavín, hacia el litoral atlántico del Bajo Orinoco que se hallaba para entonces ocupado por grupos humanos recolectores cazadores. La excelencia de la manufactura ceramista del formativo andino, dio origen a hermosas tradiciones culturales locales conocidas como Tradición Barrancas y Tradición Marajoara, entre otras, pero que no reprodujeron en las extensas sabanas y selvas de galería que bordeaban el cauce de grandes ríos como el Orinoco y el Amazonas, las complejas pautas de la organización social ni de la vida urbana de las sociedades formativas andinas. Sin embargo los pueblos y la cerámica barranqueña, de tradición andina, se difundieron desde inicios de la Era Cristiana a lo largo del arco antillano, constituyendo el fundamento de la Sociedad Taína que se desarrolló posteriormente en las Grandes Antillas. (OBEDIENTE)

Primeiros Contatos

Quando Francisco Caldeira de Castello Branco fundou a Capitania do Grão-Pará, nos idos de 1616, e deu início ao desbravamento das terras do Amazonas, encontrou os Nheengaíbas e Aruãs dominando imensa Ilha de Marajó estabeleceu, inicialmente, uma salutar convivência com os mesmos.

Em 1616 foi começada a edificação da Cidade de Nossa Senhora de Belém do Pará por Francisco Caldeira de Castelo Branco, a quem o General Alexandre de Moura logo depois de haver conquistado o Maranhão aos franceses seus usurpadores tinha mandado na qualidade de Capitão-mor do descobrimento do Grão-Pará debaixo da justa cláusula de fazer obediência a Jerônimo de Albuquerque em atenta consideração deste homem benemérito ter pisado ovante (triunfante) no Rio Miari e no Forte de Itapari os grandes Lírios, que La Touche ardido (ousado) caudilhara (liderara). (…)

Esta comarca compreende toda a Ilha Grande de Joanes; a qual nos tempos mais remotos chamava-se geralmente Ilha dos Nheengaíbas por serem de línguas diferentes e dificultosas as muitas cabildas (tribos) gentílicas que nela tinham habitáculo (morada). (BAENA, 2004)

Não demorou, porém, que as hostilidades surgissem. Não podia ser de diferente já que os portugueses logo tentaram escravizar aqueles que antes tratavam como aliados como nos relata o Padre Antonio Vieira na sua Carta de 11.02.1660.

A princípio Castelo Branco estabeleceu relações de paz e de amizade, tanto com os Tupinambás, que dominavam no continente, como com os insulares Nheengaíbas ou Marajoaras. A guerra, porém, não tardou a rebentar, e continuou longa e porfiada. Nem podia ser de outra maneira, porque os portugueses procuraram desde logo por em prática a sua antiga e fatal pretensão de reduzir à escravidão aqueles que na véspera tratavam de aliados. (GONÇALVES TOCANTINS)

De mais destas duas Missões, se fez outra à Ilha dos Nheengaíbas de menos tempo, e aparato; mas de muito maior importância e felicidade. Na grande Boca do Rio das Amazonas está atravessada uma Ilha de maior comprimento largueza que todo o Reino de Portugal, e habitada de muitas nações de Índios, que por serem de línguas diferentes e dificultosas são chamados geralmente Nheengaíbas. Ao princípio receberam estas nações aos nossos conquistadores em boa amizade, mas depois que a larga experiência lhes foi mostrando que em nome de falsa paz com que entravam se convertia em declarado cativeiro, tomaram as armas em defesa da liberdade e começaram a fazer guerra aos portugueses em toda a parte. (VIEIRA)

Máquina de Guerra Nheengaíba

Na virada do século XVII, os portugueses realizaram diversas expedições ao interior da Ilha com o objetivo de apresar e escravizar os indígenas para usá-los nos seus empreendimentos econômicos. Estas deletérias ações eram condenadas veementemente pelos Clérigos que pretendiam encaminhar os nativos para as Missões convertendo-os à Fé Católica e tornando-os súditos fiéis à Coroa Portuguesa. Os colonos encontraram dois obstáculos importantes – a Legal, diversas Leis e Decretos foram promulgadas com o intuito de regular a captura dos Índios, evidenciando o prestígio do Poder Temporal da Igreja junto à Coroa contrapondo-se aos interesses divergentes dos colonos, e a Econômica – tendo em vista que as campanhas eram extremamente afanosas e onerosas.

Na sua Ilha, os Nheengaíbas adotavam uma tática de guerrilha que os tornava simplesmente imbatíveis. Os Nheengaíbas tinham consciência de seu poderio, conheciam perfeitamente o terreno, os igarapés e furos tortuosos e de difícil navegação forçando os portugueses a evitar as incursões ao interior da Ilha. Segundo o Padre Antonio Vieira, assim que os Nheengaíbas decidiram fazer frente aos portugueses, abandonaram suas Aldeias e se pulverizaram pela região, “ocupando ao mesmo tempo toda a Ilha e nenhum lugar, sendo capazes de surpreender o inimigo ao longo do labirinto intrincado de Rios e florestas”.

Em resposta às investidas portuguesas os Nheengaíbas, que possuíam uma esquadrilha de embarcações ligeiras e bem armadas, atravessavam a Baía e contra-atacavam levando “o espanto e o terror até junto os muros da cidade” (GONÇALVES TOCANTINS). O Padre Antonio Vieira assim descreve o terreno e a ação destes indígenas no seu formidável reduto aproveitando as peculiares características do terreno:

Usa esta gente canoas ligeiras e bem armadas, com as quais não só impediam e infestavam as entradas que nesta terra são todas por água, em que roubavam e matavam muitos portugueses, mas chegavam a assaltar os Índios cristãos em suas Aldeias, ainda daquelas que estavam mais vizinhas de nossas Fortalezas, matando e cativando; e até os mesmos portugueses não estavam seguros dos Nheengaíbas dentro de suas propriedades e fazendas, do que se vêm ainda hoje muitas despovoadas e desertas, vivendo os moradores destas Capitanias dentro de certos limites, como sitiados, sem lograr as comodidades do Mar, da terra e dos Rios, nem ainda a passagem deles senão debaixo das armas.

Por muitas vezes quiseram os governadores passados, e ultimamente André Vidal de Negreiros, tirar este embaraço tão custoso ao Estado, empenhando na empresa todas as forças dele, assim de Índios, como de portugueses, com os Cabos mais antigos e experimentados; mas nunca desta guerra se trouxe outro efeito mais que o repetido desengano, de que as nações Nheengaíbas eram inconquistáveis pela ousadia, pela cautela, pela astúcia e pela constância da gente, e mais que tudo pelo sítio inexpugnável com que os defendeu e fortificou a mesma natureza. É a Ilha toda composta de um confuso, e intrincado labirinto de Rios e bosques espessos: aqueles com infinitas entradas e saídas; estes sem entradas nem saída alguma, onde não é possível cercar, nem achar, nem seguir, nem ainda ver o inimigo, estando ele ao mesmo tempo debaixo da trincheira das árvores apontando e empregando as suas flechas. E porque este modo de guerra volante e invisível não tivesse o estorvo natural da casa, mulheres e filhos, a primeira coisa que fizeram os Nheengaíbas, tanto que se resolveram à guerra com os portugueses, foi desfazer e como desatar as povoações em que viviam, dividindo as casas pelas terras adentro a grandes distâncias, para que em qualquer perigo pudessem uma avisar às outras e nunca ser acometidos juntos. Desta sorte ficaram habitando a Ilha sem habitarem nem uma parte dela, servindo-lhe, porém, em todos os bosques de muro, os Rios de fosso, as casas de atalaia (guarita) e cada Nheengaiba de sentinela, e as suas trombetas de rebate (grito ou sinal com que se anuncia o aparecimento do inimigo). (VIEIRA)

Aliança dos Neengaíbas com os Portugueses

Em 1668, chegou ao Pará D. Pedro de Melo, com a notícia da guerra declarada contra os holandeses. Como os Nheengaíbas já tinham, anos antes, se unido aos holandeses enfrentando os portugueses, os moradores do Pará consideraram que se não conseguissem uma aliança com os indígenas isso representaria a extinção da Capitania. Enviaram, então, um emissário ao Governador para chamar sua atenção sobre a questão e providências a respeito. O Governador depois de consultar as autoridades políticas, militares e eclesiásticas concordou com a eminência do perigo e a proposta de reunir todos os recursos à disposição da Capitania para enfrentar os aborígenes antes de uma possível aliança deles com os holandeses.

O Padre Vieira, porém, ofereceu-se como mediador, na tentativa de arquitetar um Tratado de Paz com os Nheengaíbas, enquanto, sigilosamente, a Capitania se preparava para a guerra. Graças ao seu invulgar talento e prestígio junto aos Nheengaíbas, conseguiu que alguns Principais Nheengaíbas viessem à cidade buscá-lo. Vejamos como nos relata este episódio o Padre Vieira na sua Carta de carta de 11.02.1660:

Chegou finalmente no ano passado de 1658 o Governador D. Pedro de Melo com as novas da guerra apregoada com os holandeses, com os quais alguma das nações dos Nheengaíbas há muito tempo tinham comércio, pela vizinhança dos seus portos com os do Cabo do Norte, em que todos os anos carregam de peixe-boi mais de vinte navios de Holanda. E entendendo as pessoas do governo do Pará que se unindo os holandeses com os Nheengaíbas, seriam uns e outros senhores destas Capitanias, sem haver forças no Estado (ainda que se ajuntassem todas) para lhes resistir mandaram uma pessoa particular ao Governador, por meio da qual lhe pediam socorro e licença para logo, como maior poder que fosse possível entrarem pelas terras dos Nheengaíbas, antes que com a união dos holandeses não tivesse remédio esta prevenção e com ela se perdesse de todo o Estado.

Resoluta a necessidade e justificação da guerra por voto de todas as pessoas Eclesiásticas e Seculares, com quem Vossa Majestade a mandou consultar, foi de parecer o Padre António Vieira, que enquanto a guerra se ficava prevenindo, em todo o segredo, para maior justificação e ainda justiça dela, se oferecesse primeiro a paz aos Nheengaíbas, sem soldados nem estrondo de armas que a fizessem suspeitosa, como em tempo de André Vidal tinha sucedido.

E porque os meios desta proposição de paz pareciam igualmente arriscados pelo conceito que se tinha da fereza da Gente, tomou à sua conta o mesmo Padre ser o mediador dela; supondo, porém, todos que não só a não haviam de admitir os Nheengaíbas, mas que haviam de responder com as flechas aos que lhes levassem semelhante prática, como sempre tinham feito por espaço de vinte anos, que tantos tinham passado desde o rompimento desta guerra.

Em dia de Natal, do mesmo 1658, despachou o Padre dois Índios Principais com uma Carta Patente sua, a todas as nações dos Nheengaíbas, na qual lhes assegurava que por benefício da nova Lei de Vossa Majestade, que ele fora procurar ao Reino, se tinham já acabado para sempre os cativeiros injustos e todos os outros agravos que lhes faziam os portugueses e que em confiança desta sua palavra e promessa ficava esperando por eles ou por recado seu, para ir às suas terras: e que em tudo o mais dessem crédito ao que em seu nome lhes diriam os portadores daquele papel.

Partiram os Embaixadores que também eram de nação de Nheengaíbas, e partiram como quem ia ao sacrifício (tanto era o horror que tinham concebido da fereza daquelas Nações, até os de seu próprio sangue) e assim se despediram, dizendo que se até o fim da Lua seguinte não tornassem, os tivéssemos por mortos ou cativos.

Cresceu e minguou a Lua aprazada e entrou outra de novo, e já antes desse termo tinham profetizado mal sucesso todos os homens antigos e experimentados desta Conquista, que nunca prometeram bom efeito a esta embaixada, mas provou Deus que valem pouco os discursos humanos, onde a obra é de sua providência.

Em dia de Cinzas, quando já se não esperavam, entraram pelo Colégio da Companhia os dois Embaixadores vivos, e mui contentes, trazendo consigo sete Principais Nheengaíbas, acompanhados de muitos outros Índios das mesmas Nações. Foram recebidos com as demonstrações de alegria e aplausos que se devia a tais hóspedes, os quais depois de um comprido arrazoado, em que desculpavam a continuação da guerra passada lançando toda a culpa, como era verdade, a pouca fé e razão que lhes tinham guardado os portugueses, concluirão dizendo assim:

Mas depois que vimos em nossas terras o papel do Padre Grande, de quem já nos tinha chegado fama, que por amor de nós e da outra gente da nossa pele se tinha arriscado às ondas do mar alto, e alcançado El-Rei para todos nós as coisas boas; posto que não entendemos o que dizia o dito papel, mais que pela relação destes nossos parentes; logo no mesmo ponto lhe demos tão inteiro crédito, que esquecidos totalmente de todos os agravos dos portugueses, nos vimos aqui meter entre suas mãos e nas bocas das suas peças de artilharia; sabendo decerto que debaixo das mãos dos Padres de quem já de hoje adiante nos chamamos filhos, não haverá quem nos faça mal.

Com estas razões tão pouco bárbaras desmentiram os Nheengaíbas a opinião que se tinha de sua fereza e barbaria: e se estava vendo nas palavras, nos gestos, nas ações, e afetos com que falavam, o coração e verdade do que diziam. Queria o Padre logo partir com eles às suas terras, mas responderão com cortesia não esperada, que eles até aquele tempo viviam como animais do mato, debaixo das árvores, que lhes déssemos licença para logo descer uma Aldeia para a beira do Rio, e que depois que tivessem edificado casa e Igreja em que receber ao Padre então o viriam buscar muitos mais em número, para que fosse acompanhado como convinha. Sinalando nomeadamente que seria para o S. João, nome conhecido entre estes gentios, pelo qual distinguem o Inverno da Primavera. Assim o prometeram, ainda mal cridos (compreendidos), os Nheengaíbas. E assim o cumpriram pontualmente; porque chegaram às Aldeias do Pará cinco dias antes da festa de S. João com dezessete canoas, que com treze da Nação dos Combocas, que também são da mesma Ilha, faziam número de trinta; e nelas outros tantos Principias, acompanhados de tanta e tão boa gente, que a Fortaleza e a Cidade se pôs secretamente em armas.

Não pode ir o Padre nesta ocasião por estar totalmente enfermo, mas foi Deus servido que o pudesse fazer, em 16.08.1659, em que partiu das Aldeias do Cametá em doze grandes canoas, acompanhado dos Principais de todas as Nações Cristãs, e de somente seis portugueses com o Sargento-mór da Praça, por mostrar maior confiança. Ao quinto dia da viagem entrarão pelo Rio dos Mapuaefes, que é a Nação dos Nheengaíbas, que tinha prometido fazer a povoação fora dos matos, em que receber aos Padres. E duas léguas antes do porto saíram os Principais a encontrar as nossas canoas em uma sua grande, e bem equipada, empavesada (enfeitada) de penas de várias cores, tocando buzinas, e levantando pocemas (algazarra), que são vozes de alegria e aplauso, com que gritam todos juntos a espaços, e é a maior demonstração de festa entre eles: com que também de todas as nossas se lhes respondia. Conhecida a canoa dos Padres, entraram logo nela os Principais e a primeira coisa que fizeram foi apresentar ao Padre António Vieira a imagem do Santo Cristo do Padre João de Soto Maior que havia quatro anos tinham em seu poder: e de que se tinha publicado que os gentios o tinham feito em pedaços, e que por ser de metal a tinham aplicado a usos profanos; sendo que a tiveram sempre guardada, e com, grande decência, e respeitada com tanta veneração e temor, que nem a tocá-la, nem ainda a vê-la se atreviam.

Receberam os Padres aquele sagrado Penhor com os afectos (as manifestações) que pedia a ocasião, reconhecendo eles, os portugueses, e ainda os mesmos Índios, que a este Divino Missionário se deviam os efeitos maravilhosos da conversão e mudança tão notável dos Nheengaíbas, cujas causas se ignoravam. Logo disseram, que desde o princípio daquela Lua, efetivaram os Principais de todas as nações esperando pelos Padres naquele lugar. Mas vendo que não chegavam ao tempo prometido, nem muitos dias depois, resolveram que o Padre Grande devia de ser morto e que com esta resolução se tinham despedido; deixando porém assentado antes, que dali a quatorze dias se ajuntariam outra vez todos em suas canoas para irem ao Pará saber o que passava: e se fosse morto o Padre, chorarem sobre sua sepultura, pois já todos o reconheciam por Pai.

Chegados enfim à povoação desembarcaram os Padres com os Portugueses e Principais Cristãos e os Nheengaíbas naturais os levaram à Igreja, que tinham feito de palma ao uso da terra, mas muito limpa e concertada a qual logo se dedicou à sagrada Imagem com o nome da Igreja do Santo Cristo e se disse o “Te Deum laudamus” em ação de graças. Da Igreja a poucos passos trouxeram os Padres para a casa que lhes tinham preparado, a qual estava muito bem traçada com seu corredor e cubículos, e fechada toda em roda com uma só porta; enfim com toda a clausura que costumam guardar os missionários entre os Índios.

Mandou-se logo recado às Nações, que tardaram em vir mais ou menos tempo conforme a distância. Mas enquanto não chegaram as mais vizinhas, que foram cinco dias, não esteve o demônio ocioso, introduzindo no ânimo dos Índios, e ainda dos portugueses, ao princípio por meio de certos agouros e depois pela consideração do perigo em que estavam se os Nheengaíbas faltassem à Fé prometida, tais desconfianças, suspeitas e temores que faltou pouco para não largarem a empresa e ficar perdida e desesperada para sempre.

A resolução foi dizer o Padre António Vieira aos Cabos que lhe pareciam bem as suas razões e que conforme a elas se fossem embora todos, que ele só ficaria com seu companheiro, pois, só a eles esperavam os Nheengaíbas e só com eles haviam de tratar. Mas no dia seguinte começou a entrar pelo Rio em suas canoas a Nação dos Mapuaefes, de quem havia maior receio por sua fereza; e foram tais as demonstrações de festa, de confiança e de verdadeira paz, que as suspeitas e temores dos nossos se foram desfazendo; e logo os rostos, e os ânimos, e as mesmas razões e discursos se vestiram de diferentes cores.

Tanto que houve bastante número de Principais, depois de se lhes ter praticado largamente o novo estado das coisas, assim pelos Padres como pelos Índios das suas doutrinas, deu-se ordem ao juramento de obediência e fidelidade, e para que se fizesse com toda a solenidade de cerimônias exteriores se dispôs e se fez na forma seguinte, ao lado direito da Igreja estavam os Principais das Nações Cristãs com os melhores vestidos que tinham, mas sem mais armas, que as suas espadas.

Da outra parte estavam os Principais Gentios despidos e empenados ao uso bárbaro, com seus arcos e flechas na mão; e entre uns e outros os portugueses. Logo disse Missa o Padre António Vieira em um altar ricamente ornado, que era da Adoração dos Reis, à qual Missa assistiam os Gentios de joelhos lendo grandíssima consolação para os circunstantes vê-los bater nos peitos, e adorar a Hóstia e o Cálice com tão vivos efeitos daquele precioso Sangue, que sendo derramado por todos, nestes mais que em seus avôs teve sua eficácia.

Depois da Missa, assim revestido nos ornamentos sacerdotais, fez o Padre uma prática a todos, em que lhes declarou pelos intérpretes a dignidade do lugar em que estavam e a obrigação que tinham de responder com limpo coração e sem engano a tudo o que lhes fosse perguntado e de guardá-lo inviolavelmente depois de prometido.

E logo fez perguntar a cada um dos Principais se queriam receber a fé do verdadeiro Deus, e ser vassalos d’El-Rei de Portugal, assim como o são os portugueses e os outros Índios das Nações Cristãs e avassaladas, cujos Principais estavam presentes? Declarando-lhes juntamente que a obrigação de vassalos era haverem de obedecer em tudo às ordens de S. Majestade, e ser sujeitos às suas leis, e ter paz perpétua e inviolável com todos os vassalos do mesmo Senhor, sendo amigos de todos os seus amigos, e inimigos de todos seus inimigos; para que nesta forma gozassem livre e seguramente de todos os bens, comodidades e privilégios que pela última Lei do ano de 1655 eram concedidos por S. Majestade aos Índios deste Estado.

A tudo responderam todos conformemente que sim; e só um Principal chamado Piyé, o mais entendido de todos, disse que não queria prometer aquilo. E como ficassem os circunstantes (presentes) suspensos na diferença não esperada desta resposta, continuou dizendo que:

As perguntas e as práticas que o Padre lhes fazia, que as fizesse aos portugueses e não a eles, porque eles sempre foram fieis a El Rei e sempre o reconheceram por seu Senhor desde o princípio desta conquista e sempre foram amigos e servidores dos portugueses e que se esta amizade e obediência se quebrou e interrompeu fora por parte dos portugueses, e não pela sua. Assim que, os portugueses eram os que agora haviam de fazer ou refazer as suas promessas, pois as tinham quebrado tantas vezes: e não ele e os seus, que sempre as guardaram.

Foi festejada a razão do bárbaro e agradecido o termo com que qualificava sua fidelidade. E logo o Principal que tinha o primeiro lugar se chegou ao Altar onde estava o Padre, e lançando o arco e flechas a seus pés, posto de joelhos, e com as mãos levantadas e metidas entre as mãos do Padre jurou desta maneira:

Eu Fulano, Principal de tal Nação, em meu nome e de todos meus súditos e descendentes, prometo a Deus e a El Rei de Portugal a Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e de ser, como já sou de hoje em diante, vassalo de S. Majestade, e de ter perpétua paz com os portugueses, sendo amigo de todos seus amigos, e inimigo de todos seus inimigos, e me obrigo de assim o guardar inteiramente para sempre.

Dito isso beijou a mão do Padre, de quem recebeu a bênção; e foram continuando os mais Principais por sua ordem na mesma forma. Acabado o juramento vieram todos pela mesma ordem abraçar aos Padres, depois aos Portugueses e ultimamente os Principais das nações Cristãs, com os quais tinham até então a mesma guerra que com os portugueses. E era coisa muito boa dar graças a Deus ver os extremos de alegria e verdadeira amizade com que davam e recebiam estes abraços e as coisas que a seu modo diziam entre eles. Por fim postos todos de joelhos disseram os Padres o “Te Deum laudamus”, e saindo da Igreja para uma Praça larga tomaram os Principais Cristãos os seus arcos e flechas que tinham deixado fora e para demonstração pública do que dentro da Igreja se tinha feito, os portugueses tiravam as balas dos arcabuzes e as lançavam no Rio e disparavam sem bala; e logo uns e outros Principais quebravam as flechas, e atiravam os pedaços ao mesmo Rio, cumprindo-se aqui à letra: “Arcum conteret et confringet arma” (Destruir o arco e quebrar as armas).

Tudo isto se fazia ao som de trombetas, buzinas, tambores e outros instrumentos, acompanhados de um grito continuo de infinitas vozes, com que toda aquela multidão de gente declarava sua alegria: entendendo-se este geral conceito em todos, posto que eram de diferentes línguas. Desta Praça foram juntos todos os Principais com os portugueses que assistiram ao ato à casa dos Padres, e ali se fez Termo Jurídico e autêntico de tudo o que na Igreja se tinha prometido e jurado que assinaram os mesmos Principais estimando muito como se lhes declarou que os seus nomes houvessem de chegar à presença de Vossa Majestade; em cujo nome se lhes passaram logo Cartas para em qualquer parte e tempo serem reconhecidos por vassalos.

Na tarde do mesmo dia deu o Padre seu presente a cada um dos Principais, como eles o tinham trazido conforme o costume destas terras que a nós é sempre mais custoso que a eles. Os atos desta solenidade que se fizeram foram três, por não ser possível ajuntarem-se todos no mesmo dia; e os dias que ali se detiveram os Padres, que foram quatorze, se passaram todos de dia em receber e ouvir os hóspedes e de noite em contínuos bailes assim das nossas nações como das suas, que como diferentes nas vozes, nos modos, nos instrumentos e na harmonia, tinham muito que ver e que ouvir. Rematou-se este triunfo da fé com se arvorar no mesmo lugar o estandarte dela uma formosíssima Cruz, na qual não quiseram os Padres que tocasse Índio de menor qualidade e assim foram 53 Principais os que a tomaram aos ombros e a levantarão com grande festa e alegria assim dos cristãos como dos gentios e de todos foi adorada.

As nações de diferentes línguas que aqui se introduziram foram os Mamaynás, os Aruans, e os Anayás, debaixo dos quais se compreendem Mapuás, Guajarás, Pixipixís e outros. O número de almas não se pode dizer com certeza; os que menos o sabem, dizem que serão 40.000 entre os quais também entrou um Principal dos Tricujus, que é Província à parte na terra firme do Rio das Amazonas defronte da Ilha dos Nheengaíbas, e é fama que os excede muito em número: e que uns e outros fazem mais de cem mil almas. (VIEIRA)

Cultura Extinta

A “Cutura Marajoara” extinguiu-se antes mesmo da chegada dos europeus à “Terra Brasilis”, não existindo nenhuma comprovação científica que os Aruans ou os Nheengaíbas sejam seus descendentes ou mesmo tenham participado de seu extermínio.

O naturalista paraense Ferreira Penna afirmava que o povo que originou a fase marajoara seria bastante adiantado, involuindo culturalmente em razão da natureza agreste da região, em integral apoio, portanto, à teoria de Steward, que pressupõe o inevitável declínio das culturas que se põem em contato com as condições mesológicas da floresta tropical. Esta tese seria comprovada mais tarde por Betty Meggers e Clifford Evans, que demonstraram, através de escavações estratigráficas, que a cultura marajoara aportou a Marajó no ápice de seu desenvolvimento, passando, a partir de então, a ingressar em irreversível decadência. (ACQUAVIVA)

Fontes

ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Lendas e tradições das Américas: Arqueologia, Etnologia e Folclore dos Povos Latino-americanos – Brasil – São Paulo – Hemus Editora Ltda, 1988.

BAENA, Antônio Ladislau Monteiro. Compêndio das Eras da Província do Pará (1615–1823) – Brasil – Pará – Editora da Universidade Federal do Pará, 1969.

CACHOT, Rebeca Carrion. La Cultura Chavin – Peru – Lima – Museo Nacional de Antropologia y Arqueologia de Lima, 1948.

DE ABREU, Aurélio M. G. Civilizações que o Mundo Esqueceu – Brasil – São Paulo – Henus Editora Ltdª, 1992.

DE MORAIS, Raimundo. Na Planície Amazônica Brasil – Brasil – São Paulo – Companhia Editora Nacional, 1936.

GONÇALVES TOCANTINS, Antônio Manoel. Relíquias de uma Grande Tribo Extinta ? Brasil ? Rio de Janeiro ? Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro ? Tomo 39 ? 2ª Parte, 1876.

FERREIRA, Lúcio Menezes. Território Primitivo: a Institucionalização da Arqueologia no Brasil (1870-1917) – Brasil – Porto Alegre – EDIPUCRS, 2010.

OBEDIENTE, Mario Sanoja. El Nacionalismo Revolucionario en Venezuela, desde la Perspectiva Antropológica – EUA – Miami – Ediciones Electrónicas Syllaba Press, 2008.

TOCANTINS, Leandro. O Rio Comanda a Vida: uma Interpretação da Amazônia ? Brasil ? Rio de Janeiro ? Livraria José Olympio Editora, 1983.

VIEIRA, António. Cartas do Padre António Vieira da Companhia de Jesus – Portugal – Lisboa – Oficina da Congregação do Oratório – Tomo II, 1735.

(*) Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia; professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx); presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER), membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG). Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN). E-mail: hiramrsilva@gmail.com; Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

 

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