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Artigo: Local de realização da existência – Tarcísio Vanderlinde

Quando discute a história da geografia em sua fase mítica, o geógrafo Eric Dardel lembra que “nenhum fato pode refutar jamais a interpretação mítica, porque só o que é garantido pelo mito se torna verdadeiramente real”. “[…] o mito, sempre colocado sobre as coisas, para as fundar, é precisamente o que faz a realidade aparecer como realidade, e a realidade confirma a todo momento o fundamento mítico”. Haveria uma força de coesão transmitida pela Terra à comunidade humana que se revelaria por uma relação totêmica. O conhecimento formal solitariamente seria incapaz de mensurar elos afetivos que ligam o ser humano a Terra e ao ambiente onde vive: “uma árvore ou uma vaga não podem nunca se tornar coisas ligadas ao homem por uma relação de conhecimento; são sempre seres que participam afetiva ou coletivamente, como manifestações de poder da vida esparsa em seu ambiente”.

A fase que Dardel denomina de “Geografia Heroica”, é aquela que envolve riscos. “Compreensão da Terra em que o espaço geográfico é considerado como um espaço a descobrir, apelo à aventura, ampliação da morada terrestre fixada pela tradição e pela vida em grupo”. O atual turismo de aventura lembra esta fase. A busca por paraísos terrestres, ilhas lendárias, como Antilia ou Brasil, povoaram o imaginário no período da geografia heroica que se identifica com a fase das grandes navegações e descobertas. Paralelamente surge uma produção literária que busca dar conta do imaginário que emerge nessa fase. A Utopia de Thomas Morus, Viagens Imaginárias de Swift constituem exemplos dessa literatura. “Não existe um povo que não tenha admitido um ‘país da alma’, um ‘outro mundo’ a se procurar além do horizonte, e, contudo terrestre”.

Ancorada na “geografia heroica” surge a “geografia das velas desfraldadas” expressão que o autor empresta de Lucien Febvre. Ela é propriamente um capítulo da “geografia heroica” e aponta para o ambiente em que a nova geografia deveria ser produzida. É a geografia decorrente do estudo de campo, das viagens, das explorações: “Ela se opõe, numa formulação bem sucedida, à ‘geografia de gabinete’ ou de laboratório, aquela dos cientistas trabalhando com documentos, cartas, fotografias, estatísticas, relatórios de viagens”. A geografia de laboratório não é descartada por Dardel, contudo ela exige uma postura mais aberta para a Terra. Exige uma intenção que ultrapasse uma motivação que se satisfaz em pesquisar as bases das trocas comerciais e da política, por exemplo. Na visão de Dardel, uma geografia científica é aquela que permite a surpresa, a dúvida diante da justificativa de mitos e lendas: “É necessário que os homens se surpreendam com os fatos com que se deparam, que ultrapassem esses fatos como simples existentes”. Coisa que hoje normalmente só ocorre quando o GPS não funciona.

Na visão de Dardel a geografia precisa surpreender e provocar uma inquietude no ser humano, pois ela responde um interesse existencial do mesmo. Ela exige o rompimento de um quadro fechado onde homens vistos como objetos passem a se sentir somo sujeitos. Sujeitos de um mundo em que a natureza já desfigurada ameaça ruir. A atualidade de Dardel é revolucionária ao defender que “É necessário […] compreender a geografia não como um quadro fechado em que os homens se deixam observar tal como insetos de um terrário, mas como o meio pelo qual o homem realiza sua existência, enquanto a Terra é uma possibilidade essencial de seu destino”.

(*) Tarcísio Vanderlinde é docente da Unioeste-PR. E-mail: tarcisiovanderlinde@gmail.com  


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