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Artigo: Lado obscuro – Tarcísio Vanderlinde

“O centro da civilização é todo lugar onde se pensa” (Élisée Reclus) 

Durante a segunda metade do século XIX havia a confiança de que o progresso, alavancado principalmente pela indústria, disponibilizaria as condições para se construir o paraíso na Terra. Eventos do século seguinte abalariam a crença. Duas violentas guerras mundiais aliadas ao desequilíbrio ambiental ocasionado pelo uso irrefletido de recursos resultantes do avanço industrial provocaram diversos questionamentos sobre a relação entre civilização e progresso. O progresso deveria levar a humanidade a uma condição de vida melhor. Contudo, ele revelou um lado obscuro, sobre o qual ainda não se aprendeu a lidar. Em matéria recente, o “Jornal Hoje” de Cascavel – PR publicou resultado de pesquisa que avalia as consequências para a saúde do uso inconsequente de agrotóxicos no oeste do Paraná. O que foi sinalizado há poucas décadas como solução, no seu lado obscuro, se tornou um pesadelo para produtores e consumidores de alimento. 

Há mais de um século o geógrafo Élisée Reclus (1830-1905) esboçava uma crítica ao conceito de progresso. Os fragmentos em destaque constam no ensaio “Progrès”  publicado em Paris no ano de 1905. Em sua crítica, o professor nos conduz a uma reflexão a partir da premissa de que “O centro da civilização é todo lugar onde se pensa” e acrescenta: “A felicidade, tal como a compreendemos, não é uma simples fruição pessoal. É verdade que ela é individual no sentido que cada um é o próprio artesão de sua felicidade, mas não é verdadeira, profunda, completa senão se estendendo sobre toda a humanidade. […] Assim que o senso de justiça for satisfeito pela participação de todos nos haveres materiais e intelectuais da humanidade, disso resultará para cada homem um singular alívio da consciência, pois o estado de desigualdade cruel, que acumula atualmente uns de riquezas supérfluas, pesa como remorso, consciente ou inconsciente, nas almas humanas, sobretudo naquela dos felizes, e mistura sempre um veneno às suas alegrias. 

[…] Se acontecer, em breve, que a humanidade preencha esses dois objetivos, não deixar ninguém morrer de fome e apodrecer na ignorância, então, um outro ideal apresentar-se-á como um farol à vista, ideal que, por sinal, já é perseguido por um número cada vez maior de indivíduos: a elevada ambição de reconquistar todas as energias que se dissipam, impedir o desperdício das forças e dos materiais no presente, e também reconquistar no passado tudo o que nossos ancestrais haviam deixado escapar. […] Como admirar, amar a pequena individualidade encantadora da flor, como sentir-se irmão com o animal, dirigir-e a ele como fazia Francisco de Assis, quando não se vê também nos homens caros companheiros, a menos, contudo, que fujam deles por força de amor, a fim de evitar as agressões morais que vêm do vingativo, do hipócrita ou do indiferente? 

[…] A prosperidade de uns conduz à decadência dos outros, justificando assim a antiga alegoria que representa a fortuna como uma roda, reerguendo uns e esmagando os outros. Um mesmo fato pode ser citado diversamente, do lado direito como um grande progresso moral, do lado esquerdo como um início de decomposição. […] Ordenar os continentes, os mares e a atmosfera que nos envolve, cultivar nosso jardim terrestre, distribuir novamente e regular as convivialidades para favorecer cada vida individual de planta, animal ou homem, adquirir definitivamente consciência de nossa humanidade solidária, fazendo corpo com o próprio planeta, abranger com o olhar nossas origens, nosso objetivo próximo, nosso ideal distante, é nisso que consiste o progresso”.

(*) Tarcísio Vanderlinde é Doutor em História pela UFF. Pós-doutorado em Sociologia pela UFPR.Docente Associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Atua em Programas de Pós-Graduação da Unioeste nos campi de Foz do Iguaçu e Marechal Cândido Rondon. Tem experiência nos seguintes temas: agricultura familiar e camponesa, história, globalização, mediações, geografia e religiosidades, ecoteologia, migrações, identidades e ambiente. Publicou em 2006 pela Edunioeste o livro “Entre dois reinos: a inserção luterana entre os pequenos agricultores no sul do Brasil”. Consultor ad hoc da Capes. Publica regularmente artigos jornalísticos. tarcisiovanderlinde@gmail.com

 

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