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Artigo: As pronúncias do âmago – Amadeu Garrido de Paula

A linguagem que encobre é a mãe; a que perfura, desvenda, o filho. Falo de prosa e poesia.

Ambos passeiam. O filho é a poesia e corre bem à frente da prosa. Esta se perturba, preocupa-se com o garoto que pode ser atropelado. Grita, não raro como um viandante do mundo que se perdeu no deserto.

A poesia tem a vantagem do timbre de Alberto Caieiro. Perfura as consciências, desde as mais simples e populares até as próceres da academia. Não tem a menor responsabilidade, paga o preço das aventuras. Não se critica com a mesma facilidade a prosa hermética, debitada à nossa ignorância, ainda que nada diga. Já a poesia está ao alcance de todas as críticas negativas e positivas. Por vezes, a poesia brota não se sabe de onde, como o garoto, não há muito, brotou do útero e não tem a mínima ideia do que seja este mundo; e do risco de correr entre automóveis para chegar à praça das gangorras.

Tantas cautelas obscurecem a prosa. A irresponsabilidade da poesia é mais criativa. Ambas buscam descoberta no subsolo dos significados. A lógica é própria das prosas, mas há muitos nós lógicos desfeitos pelas intuições dos poetas. Não se pode nunca criticar a liberdade, e a liberdade é própria da poesia. Entenda-se: liberdade que não chega ao ponto de admitir que o garoto se lance face a um automóvel. Creio que há um instinto que nos governa e nos impõe as orlas da liberdade ao racional e ao razoável. A razão conduz mais à libertinagem, posto não ser uma razão pura.

Falar exclusivamente sobre o modo da poesia, como Pessoa impôs a seu heterônimo, mantém a alma leve. E diz, muitas vezes, o que é impossível à prosa, embora o inverso ao verso também deva ser admitido. Prosa alguma conseguiria nos transmitir o fato simples de um cuidar de ovelhas. Posso dizer, porém, que senti um profundo vazio quando vi ovelhas se irem, pela manhã, de um campo onde as observava. O campo ficou solitário em sua natureza. O que há dentro de nós, que a filosofia, a teologia, a psicologia, não conseguem perceber, mas a poesia traz à tona? Somos incompletos e nosso espírito teima em descobrir luzes que nos ofuscam e não percebemos.

A poesia gerou a psicologia, mas esta ingratamente decretou a morte de muitos escavadores, ao procurar conceituar o que não é passível de motivações.

Mãe e filho prosseguem em seu passeio da tarde, aquela em raciocínios, este à busca das gangorras, enlouquecido para vê-las. “Nas cidades as grandes casas fecham a vista à chave/escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu/ tornam-nos pequenos porque tiram o que os nossos olhos nos podem dar/ e tornam-nos pequenos porque a nossa única riqueza é ver.” (Caieiro, o xodó de Pessoa).

(*) Amadeu Garrido de Paula, é Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

 

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